Professores do Estado prometem cruzar os braços dia 9 e 10
Carlos Ratton

Carlos Ratton
16.03.2026
Fotos: Tony Valentte
Professores que lecionam em pouco mais de 2.100 escolas (40%) da rede estadual de Ensino do Estado de São Paulo deverão cruzar os braços em uma greve nos dias 9 e 10 de abril próximos, em defesa da educação pública paulista. A rede possui 5,3 mil escolas. As unidades autônomas e vinculadas atendem cerca de 3,5 milhões de alunos.
A informação acima é da deputada estadual e presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de SP (APEOESP), Maria Izabel Azevedo Noronha, a Bebel (PT), que conversou com Os Inconfidentes neste domingo (15), em Santos, no lançamento do Comitê Popular que vai envolver as 95 subsedes da APEOESP em todo o Estado e entidades sindicais parceiras, além de pelo menos mais oito movimentos populares e a classe estudantil, por intermédio da União Paulista dos Estudantes.
Na próxima quarta-feira (18), o Comitê Popular da Baixada Santista vai promover um ato público em frente as diretorias de Ensino de Santos (às 10 horas) e de São Vicente, às 15 horas. O mesmo deverá ocorrer em todas das diretorias de ensino do Estado até a greve.
Segundo Bebel, o professorado estadual não está mais suportando o desmonte público e notório que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) vem promovendo em São Paulo, envolvendo demissões (cerca de 40 mil professores dos 220 mil do estado perderam o cargo na maior rede de ensino do Brasil), assédio moral, militarização e fechamento de salas noturnas.
“Não são os professores que estão sendo atacados por Tarcísio, mas todo o funcionalismo público e a sociedade paulista. Queremos que o Governo retire de pauta o Projeto de Lei 1316/2025. Vamos lutar para que ele não seja aprovado na Assembleia Legislativa, mas não descartamos entrar com uma ação civil pública. São cerca de 250 mil educadores e familiares que podem ser extremamente prejudicados. Estamos falando de cerca de um milhão de pessoas”, lembra Bebel (foto).

Projeto
O PL altera a carreira dos professores propondo remoções compulsórias, novas regras para faltas, avaliação de desempenho e pode afetar a estabilidade e progressão funcional dos docentes.
Também propõe fim do direito automático aos 10 dias de recesso, endurecimento, descontos maiores por pequenas ausências e avaliações para promoção funcional subjetivas como, como exemplo, alunos avaliando os professores.
“Tivemos uma atribuição de aulas injusta, que demitiu professores e deixou admitidos em caráter precário. Se você faltar duas aulas, perde o dia todo. Estudante está em processo de formação. Avaliação é para quem já tem maturidade para realiza-la. Então, a gente tem claro que esse PL ataca frontalmente os direitos dos professores”, finaliza Bebel.
Rosa
Presente na sede de Santos da APEOESP, a professora e ex-prefeita de Cubatão, Márcia Rosa, com mais de 40 anos de Magistério, também fez críticas pesadas ao que chama de desmonte da educação pública pelo Governo Tarcísio.
“Eu posso dizer para você que eu passei por governos da Ditadura. Eu era funcionária no governo do Paulo Maluf, do Mário Covas, do Franco Montoro, do Sérgio Fleury, mas nenhum governo foi tão ruim quanto este do governo Tarcísio de Freitas. Ele é extremamente determinado a fechar as escolas e privatizá-las. Então, como que você faz isso? Você faz isso comprometendo, decaindo a qualidade das escolas para depois você privatizar”, afirma.
A ex-prefeita lembra que uma escola em Cubatão chegou a ter, em média, 1.800 alunos e maior parte estudava à noite porque trabalhava para ajudar os pais. Conta que Tarcísio promoveu o fechamento sistemático de salas de aula e foi eliminando disciplinas humanas, que promovem o senso crítico, que fazem os alunos pensarem, como sociologia e filosofia.
“Foi reduzindo química, física, biologia, geografia. Praticamente só existe português e matemática. A ideia é formar mão de obra barata para servir ao grande capital. É isso que ele fez. Quer que filho de pobre e trabalhador não tenha condições de ingressar numa universidade. Com essa política do Estado na área da Educação, ela amplia as diferenças sociais e isso é cruel”, explica.
Márcia Rosa (foto) ainda revela outras vertentes da ‘nova’ educação paulista. Sucateamento das escolas e desqualificação do professor, colocando o educador como o culpado de tudo, inclusive pela falta de investimento na educação pública. “O avanço da crueldade contra os professores é algo surreal, que eu nunca vi. E olha que eu dei aula por 44 anos. A hora/aula vale R$ 25,50. Você tem que comprar apagador, pilha e material para poder lecionar. Estamos nos movimentando para impedir maior tragédia já vista na Educação Paulista”, finaliza.

No encontro, outros educadores se manifestaram, revelando que o Governo Tarcísio de Freitas se recusa a reconhecer a evasão escolar, uma das maiores já vistas no Estado, a destruição da consciência coletiva, a estratégia de jogar a opinião pública contra os professores, a retirada de 11 bilhões da Educação sem apontar o que foi feito com o dinheiro e a discriminação com municípios pequenos, priorizando o envio de verbas para municípios de médio e grande porte.

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