Quando a mídia dá cor ao agressor e reserva a inocência à branquitude

Quando a mídia dá cor ao agressor e reserva a inocência à branquitude

Por CristianoTorres1977

06.06.2026

Imagem referência para o artigo da capa do Jornal O Globo (Freepik)

A violência contra a mulher é um problema real e grave, mas a forma como ela é representada pela mídia também merece análise crítica, pois, ao utilizar a imagem de um homem negro estrangulando uma mulher branca para ilustrar uma reportagem sobre violência de gênero, o jornal não apenas comunica uma mensagem sobre agressão, mas também mobiliza símbolos e imaginários sociais que carregam uma longa história de racialização.

Historicamente, homens negros foram frequentemente retratados como perigosos, violentos e ameaçadores, enquanto a mulher branca foi apresentada como símbolo de inocência, pureza e vulnerabilidade, configurando uma oposição que não surgiu por acaso, visto que foi construída ao longo dos séculos por discursos coloniais, escravistas e racistas.

Quando uma grande empresa de comunicação reproduz essa composição visual, mesmo que involuntariamente, reforça estereótipos que associam a negritude à violência e a branquitude à condição de vítima, o que desloca a centralidade do debate para além de quem aparece na imagem, alcançando a razão pela qual determinadas imagens são escolhidas repetidamente para representar determinados papéis sociais.

Quando a mídia dá cor ao agressor e reserva a inocência à branquitude, o racismo deixa de ser apenas uma estrutura invisível e passa a se manifestar também nas escolhas editoriais que moldam o imaginário coletivo.

Essa engrenagem visual funciona como uma armadilha que prende o corpo negro em um rótulo preconceituoso, onde a imprensa de massa atua repetindo as ideias de uma sociedade que precisa criar a imagem do "homem negro violento" para justificar o controle social, a perseguição e a exclusão.

Diante de um arquivo infinito de fotografias possíveis para ilustrar o sofrimento das mulheres no país, qual é o critério oculto que faz a mão do editor pinçar, com cirúrgica precisão, justamente o corpo negro para encarnar a brutalidade?

Será que as salas de reunião das grandes redações sofrem de uma amnésia crônica que as impede de enxergar os agressores que compartilham de seus mesmos sobrenomes e privilégios?

A insistência dos editores nessa mesma imagem carimba o homem negro com uma marca de culpa antes mesmo de qualquer julgamento, o que muda a opinião pública e faz com que as pessoas fiquem vigiando os negros no dia a dia, transformando a escolha da foto do jornal em um ato político que apoia o preconceito da polícia e a desconfiança generalizada nas ruas.

Longe de ser uma impressão qualquer, a revolta contra esse padrão é baseada em pesquisas reais sobre comunicação, que mostram que 23% dos negros entrevistados afirmam que só aparecem na TV e nos jornais como criminosos, enquanto 79% dizem que não se veem representados de verdade nas artes, nas novelas e nos filmes.

Esse cenário de invisibilidade fica ainda mais claro nos programas policiais de TV, onde os suspeitos negros são mostrados de forma exagerada, criando uma imagem que faz o negro parecer culpado apenas por existir.

Os grandes jornais brasileiros foram construídos a partir de uma visão onde as pessoas brancas são tratadas como o padrão normal de cidadão e de ser humano, jogando a população negra para o lado do perigo e do crime.

Essa diferença grotesca aparece na hora de dar a notícia: quando o crime é cometido por um homem branco rico ou de classe média, os jornais convenientemente aliviam a barra dele, chamando o sujeito de "jovem", "estudante" ou "empresário" e usando fotos dele sorrindo em viagens com a família, como se o ato violento fosse apenas um tropeço em uma vida exemplar.

Por outro lado, quando é um homem negro, o jornalismo mostra o homem algemado, com fotos de delegacia ou ilustrações violentas, fazendo parecer que a violência faz parte da natureza dele, o que nos obriga a perguntar: se o crime não tem cor na hora de receber o perdão da opinião pública, por que ele precisa ser tão retinto na hora de ilustrar a capa dos jornais?

O ponto mais mentiroso dessa história é o abismo que existe entre a imagem que a TV mostra e o fato atual documentado pelos dados oficiais, já que os relatórios do Atlas da Violência provam que a população negra não é a que mais comete crimes, mas sim a maior vítima da violência no Brasil, com números de assassinatos muito maiores do que os de outros grupos.

É realmente fascinante observar como a linha editorial do jornal O Globo consegue operar uma mágica matemática ao transformar o grupo que mais morre no país no único personagem que mata nas ilustrações de suas reportagens. Do mesmo modo, quando o assunto é a violência dentro de casa, as mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio e de agressões físicas no país, sofrendo ao mesmo tempo com o machismo e com o racismo, mas esse sofrimento quase não aparece nos grandes jornais.

Ao esconder que a mulher negra é quem mais sofre com a violência doméstica e que o homem negro é o alvo principal dos assassinatos nas ruas, a grande mídia monta uma farsa que serve apenas para deixar a população branca com medo e esconder o fracasso real da segurança pública, provando que o compromisso jornalístico com a verdade histórica termina exatamente onde começam os interesses de manutenção da hegemonia da branquitude.

Esse preconceito das empresas de comunicação vem de longe e sempre esteve nas novelas brasileiras, onde os atores negros passaram décadas sendo escalados apenas para papéis de escravizados, empregados domésticos, motoristas, bandidos ou cargos de limpeza, sem direito a uma história própria ou a uma família estruturada.

O maior exemplo disso foi a novela "A Cabana do Pai Tomás", em 1969, onde a Globo colocou um ator branco pintado de preto para fazer o papel principal, o que ficou marcado como uma vergonha histórica na TV e mostra como o grupo que manda na mídia sempre guardou os papéis de prestígio, riqueza e inteligência para os brancos.

Os estudos sobre as novelas desde a década de 1960 provam que a televisão criou personagens negros submissos ou malandros agressivos justamente para manter a hierarquia racial e fazer o público aceitar a desigualdade como se fosse algo natural, levantando o questionamento inevitável sobre como uma empresa que se diz defensora da modernidade e dos direitos humanos passa gerações inteiras utilizando seus cenários luxuosos para trancafiar a população negra na senzala da narrativa nacional.

Por isso, criticar essa escolha de imagens não é querer censurar os jornais e nem ignorar a gravidade da violência contra as mulheres; é exigir que as grandes emissoras tenham responsabilidade com aquilo que colocam no ar, já que elas usam canais públicos e mudam a cabeça do povo.

Em um país com tanta desigualdade, ficar repetindo fotos que ligam o negro ao crime ande o branco à inocência só serve para manter o preconceito vivo e deixar o negro excluído. Discutir as escolhas dos donos dos jornais não é bobeira ou detalhe visual, é parte obrigatória da luta para que o Brasil seja um país com democracia, cidadania e direitos iguais para todo mundo de verdade, o que nos leva diretamente ao coração da decisão que foi tomada friamente dentro da redação do jornal O Globo.

A publicação dessa imagem agressiva não foi uma infelicidade técnica ou uma mera coincidência visual de um banco de dados automatizado; ela carrega a assinatura de escolhas conscientes feitas por profissionais que ganham a vida manipulando o imaginário social.

Existe uma linha direta de responsabilidade humana que precisa ser trazida à luz e cobrada com o rigor da denúncia pública. Ela começa na lente do fotógrafo que monta o cenário colonial da agressão racializada, estende-se pela caneta do redator que amarra a matéria sem questionar o absurdo da ilustração, e deságua no veredito do editor de fotografia e do diretor de redação que validaram a colocação de um homem negro enforcando uma mulher branca na vitrine de suas páginas.

Que tipo de jornalismo é esse que precisa recorrer à carimbagem racista para chocar o leitor, enquanto os crimes domésticos reais cometidos cotidianamente pela elite branca são resguardados pelo manto do segredo de justiça e pelo silêncio corporativo?

Denunciar o jornal O Globo e toda a sua equipe envolvida nessa publicação não é apenas expor um erro de conduta, mas sim colocar em xeque-mate o racismo velado de profissionais que usam crachás institucionais para reatualizar o linchamento simbólico da população negra, exigindo que esses indivíduos assumam as consequências de transformar as ferramentas de informação em armas de perseguição cultural.

É fundamental compreender que o massacre gráfico promovido pela cúpula do jornal ultrapassa a falta de ética e esbarra de forma escancarada na própria legislação penal brasileira. Ao carimbar coletivamente toda uma população na figura do agressor universal, os diretores e editores do veículo ignoram de maneira conveniente os pilares da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, conhecida como Lei Caó, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.

O artigo 20 desse texto legal pune expressamente o ato de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, fixando pena de reclusão de um a três anos e multa. No entanto, o parágrafo segundo do mesmo artigo é ainda mais severo com os barões da comunicação ao determinar que, se o crime for cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou de publicação de qualquer natureza, a pena de reclusão salta para dois a cinco anos e multa, facultando ainda ao juiz ordenar a destruição do material.

O descaso editorial ganha contornos de crime explícito diante do avanço trazido pela Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023, que promoveu uma alteração histórica ao equiparar a injúria racial ao crime de racismo, inscrevendo a conduta diretamente na Lei Caó.

Com o fato atual dessa mudança, associar o homem negro à criminalidade de forma generalizada por meio de uma ilustração perdeu qualquer brecha de impunidade, tornando-se uma prática estritamente imprescritível, inafiançável e sujeita a uma pena de reclusão de dois a cinco anos, aumentada de um terço até a metade se o crime for cometido por duas ou mais pessoas, como ocorre na ação conjunta de uma redação.

Sob a falsa alegação de exercerem a liberdade de imprensa, os envolvidos operam uma discriminação estrutural que viola as garantias mais básicas de dignidade da população negra, o que nos faz questionar até quando o Poder Judiciário aceitará que concessões de comunicação sirvam de salvo-conduto para o crime de racismo editorial.

Se a lei é explícita ao punir quem discrimina ou fomenta o preconceito de raça e cor, qual é a justificativa para que os nomes gravados no expediente das grandes redações fiquem imunes e blindados diante de um ataque explícito promovido em suas capas diárias?

Para além das barras dos tribunais, o motor de moer reputações negras só continua funcionando porque encontra sustentação no único lugar que realmente dói no bolso dos barões da mídia: os gordos contratos publicitários.

Torna-se patético e profundamente irônico assistir às grandes marcas multinacionais e empresas nacionais comprarem páginas inteiras de anúncios e lançarem campanhas milionárias exaltando a diversidade, o orgulho negro e a responsabilidade social, enquanto financiam diretamente o veículo que utiliza a sua principal vitrine visual para caçar a dignidade dos homens negros.

Onde estão os diretores de marketing e os conselhos de administração das corporações patrocinadoras na hora em que o dinheiro de seus produtos serve para bancar uma farsa editorial que joga a culpa da barbárie no colo do povo negro? O silêncio do mercado econômico diante da aberração iconográfica nada mais é do que uma cumplicidade por lucro, pois fazer campanha no Dia da Consciência Negra é fácil, mas o teste real de caráter exige retirar imediatamente os investimentos publicitários de jornais que insistem em lucrar com o pânico moral e a segregação racial.

Cobrar e expor publicamente as marcas financiadoras é o passo urgente para arrancar a sustentação financeira de quem insiste em tratar a negritude como sinônimo de violência, forçando o empresariado a escolher se continuará financiando o racismo recreativo das redações ou se respeitará a maioria da população trabalhadora deste país.

CristianoTorres1977 é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras (UNEMAT) e analista crítico das desigualdades sociais

 

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