Quando a segurança começa a produzir exclusão: as grades na Unemat de Sinop

Quando a segurança começa a produzir exclusão: as grades na Unemat de Sinop

Por Cristianotorres1977

22.09.2026

Foto: Divulgação

O campus e a transformação do espaço

Quem chega ao campus da Universidade do Estado de Mato Grosso, em Sinop, encontra uma mudança que não passa despercebida: grades foram instaladas em praticamente todos os corredores de acesso. A justificativa apresentada está relacionada ao controle da entrada de automóveis, especialmente veículos utilizados para entrega de mercadorias ao restaurante, e à organização da circulação interna. Impedir que veículos avancem sobre áreas destinadas prioritariamente às pessoas é uma medida compreensível. O problema está na dimensão da resposta. Uma questão específica de circulação passou a ser enfrentada por uma intervenção física que altera os caminhos utilizados diariamente por toda a comunidade acadêmica.

A Unemat é uma instituição pública e seu campus não pode ser compreendido apenas como uma estrutura administrativa. Universidade também é circulação, convivência, encontro, permanência e pertencimento. É nos corredores, pátios, estacionamentos, bibliotecas e áreas de convivência que estudantes, professores, trabalhadores, pesquisadores e visitantes experimentam concretamente a vida universitária. Quando uma passagem é fechada ou uma área antes aberta passa a ser cercada, não se modifica apenas a arquitetura. Modifica-se a relação das pessoas com o território. Como observa Milton Santos, “o território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence” (SANTOS, 1999, p. 8).

Por isso, a questão precisa ser colocada diretamente: se o objetivo é impedir a entrada de veículos nos corredores, por que a solução adotada precisou alcançar praticamente todos os acessos? Controlar automóveis é diferente de controlar fisicamente os caminhos das pessoas. Quando uma passagem antes aberta passa a ser delimitada por grades, a circulação deixa de ser uma experiência espontânea e passa a exigir atenção permanente sobre onde entrar, por onde passar e qual percurso foi bloqueado. O que se apresenta como uma solução logística também produz uma transformação territorial. A pergunta deixa de ser apenas como impedir que um carro entre e passa a ser que tipo de espaço universitário está sendo construído para impedir que esse carro entre. 

É nesse ponto que surge a sensação de confinamento. E, quando essa sensação aparece, a imagem de uma prisão atravessa a percepção do espaço. Em alguns pontos, a universidade começa a lembrar o Carandiru. Não porque uma universidade seja um presídio e nem porque exista equivalência histórica entre os dois lugares, mas porque grades produzem significados. Elas podem comunicar proteção e organização, mas também podem produzir imagens de fechamento, vigilância e restrição. A arquitetura não é apenas matéria. Ela interfere na maneira como um espaço é percebido, atravessado e vivido.

A organização espacial também interfere na circulação dos corpos. Ao estabelecer limites, modificar caminhos e criar novos pontos de acesso, uma instituição reorganiza concretamente a experiência de quem utiliza o lugar. O estudante encontra uma nova fronteira, o trabalhador altera seu percurso, a professora passa por outro ponto de circulação e o visitante percebe que o campus mudou.

Segurança não pode ser confundida com contenção

Essa crítica não atribui à administração universitária uma intenção de segregar pessoas. Não há elementos suficientes para sustentar essa afirmação. Uma medida pode ter uma finalidade administrativa específica e produzir efeitos que ultrapassam a intenção declarada. É justamente nesses efeitos que a análise precisa se concentrar. A pergunta não é somente se a grade bloqueia veículos, mas se a solução adotada resolveu o problema sem criar novas restrições. O campus ficou mais seguro ou apenas mais cercado? A intervenção enfrenta os riscos existentes ou apenas modifica a paisagem? A justificativa administrativa não pode ser o ponto final da discussão. É preciso verificar os resultados.

A necessidade de segurança é concreta. Existem áreas do campus que permanecem escuras, especialmente determinados pontos de estacionamento. Ambientes mal iluminados podem ampliar a sensação de vulnerabilidade e favorecer situações de violência contra mulheres, furtos e danos a carros, motocicletas e bicicletas. Já houve situações em que pneus de bicicletas foram deliberadamente furados. Esses problemas precisam ser enfrentados, mas a resposta deve corresponder ao risco. Uma grade não ilumina um estacionamento, não acompanha uma estudante que atravessa uma área escura, não identifica quem circula naquele espaço e não impede, por si só, danos ao patrimônio. Segurança exige iluminação adequada, vigilância, monitoramento, manutenção, presença institucional e capacidade de resposta. 

Se o problema é a entrada indevida de veículos, controla-se a entrada de veículos. Se o problema é a escuridão dos estacionamentos, melhora-se a iluminação. Se há vulnerabilidade em determinados horários, organiza-se a presença institucional nesses períodos. Se há furtos ou danos ao patrimônio, fortalecem-se os mecanismos de prevenção e resposta. A solução precisa guardar relação com o risco que pretende enfrentar. Uma estrutura pode produzir uma forte sensação visual de proteção sem necessariamente resolver as situações que geram insegurança. Controlar automóveis e proteger pessoas são problemas relacionados, mas não são a mesma coisa.

Essa distinção leva diretamente ao dinheiro público. Recursos foram utilizados para adquirir e instalar as estruturas e, depois de empregados, não retornam simplesmente caso outra solução venha a ser considerada mais adequada. O recurso foi transformado em material, mão de obra, instalação e alteração permanente da paisagem. A pergunta, portanto, é objetiva: quanto foi gasto? Qual problema exatamente esse investimento pretende resolver? Quais alternativas foram consideradas? Quais critérios técnicos justificaram a escolha? E como a instituição demonstrará que o investimento produziu o resultado esperado?

Toda decisão de investimento público estabelece prioridades. O recurso destinado às grades deixa de estar disponível, naquele momento, para outras necessidades. Isso não significa afirmar que iluminação, monitoramento, manutenção, acessibilidade, sinalização, organização dos horários de entrega ou controle específico de veículos seriam necessariamente soluções melhores. Significa exigir que a instituição demonstre por que escolheu determinada alternativa, quanto ela custou, quais opções foram avaliadas e qual resultado pretende alcançar. O debate sobre dinheiro público não pode terminar na existência física da obra.

Espaço público, pertencimento e experiência

A paisagem registra as escolhas institucionais. O dinheiro público permanece materializado naquilo que foi construído e passa a interferir na maneira como as pessoas utilizam o campus. A decisão financeira também se transforma em decisão territorial. Se o território envolve chão, identidade e pertencimento, modificar fisicamente esse chão pode alterar a experiência daqueles que o utilizam. A universidade continua formalmente pública, mas a experiência de pertencimento pode mudar quando a circulação cotidiana passa a ser mediada por barreiras. 

É necessário distinguir acesso formal de experiência concreta. Uma pessoa pode continuar autorizada a entrar na universidade e, ainda assim, encontrar um ambiente fisicamente mais restritivo. Não é necessário impedir juridicamente a entrada para modificar a relação com o espaço. O acesso pode permanecer garantido enquanto a circulação se torna mais controlada. Uma universidade pública não é apenas um lugar ao qual se concede entrada. É também um espaço que precisa ser vivido, ocupado e experimentado pela comunidade.

Essa dimensão pode ser compreendida a partir da reflexão de Henri Lefebvre sobre o direito à cidade. Ao discutir esse direito, o autor o relaciona à “liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar” (LEFEBVRE, 2001, p. 134). A Unemat não é uma cidade, mas a noção de habitar ajuda a compreender que espaços coletivos não são definidos somente pelo direito formal de entrar. Também importa poder ocupar, atravessar, permanecer e construir relações com o lugar. A vida universitária acontece nos espaços entre as salas, e a circulação também integra essa experiência.

Segurança e liberdade de circulação, portanto, não precisam ser tratadas como forças incompatíveis. A universidade deve proteger as pessoas para que elas possam ocupar seus espaços com tranquilidade. O desafio é construir mecanismos de proteção que enfrentem riscos concretos sem transformar a experiência universitária em uma sucessão permanente de barreiras. Segurança deve ampliar a possibilidade de circulação segura, e não simplesmente multiplicar estruturas de controle.

A dimensão racial do espaço

Essa discussão também precisa considerar que os corpos não chegam ao espaço público carregando as mesmas experiências. Uma grade pode representar proteção para uma pessoa e controle para outra. Em uma sociedade marcada por desigualdades raciais históricas, vigilância, suspeição e contenção podem assumir significados diferentes conforme a experiência social de quem ocupa determinado espaço. Isso não permite afirmar que as grades da Unemat tenham sido instaladas com intenção racista. Não há elementos suficientes para sustentar essa conclusão. O que existe é uma questão institucional legítima: como diferentes sujeitos experimentam uma transformação física baseada em controle e contenção?

O espaço não está separado das relações sociais que o produzem. Quando uma instituição administra circulação, visibilidade, acesso e vigilância, também interfere na experiência dos diferentes corpos que utilizam aquele espaço. Em uma sociedade atravessada por desigualdades estruturais, essas condições não podem ser consideradas neutras. Lélia Gonzalez observa que “temos uma divisão racial do espaço não só no nível do país, mas também no nível das entidades, no nível do campo e, evidentemente, da própria estrutura social” (GONZALEZ, 2020, p. 248).

Essa experiência também é corporal. O sujeito não ocupa o espaço como indivíduo abstrato, separado de sua história social. Ele circula carregando experiências que interferem na maneira como percebe e é percebido. É nesse sentido que Frantz Fanon escreve: “eis que me descubro objeto em meio a outros objetos” (FANON, 2008, p. 103). A passagem pertence a outro contexto e não pode ser aplicada mecanicamente à Unemat. Seu diálogo com o problema está em lembrar que a experiência do espaço também é uma experiência social e corporal. Quando a paisagem passa a ser marcada por barreiras, controle e vigilância, é legítimo perguntar como essa transformação é vivenciada por diferentes grupos.

A análise também precisa evitar simplificações. Silvio Almeida afirma que “o racismo é sempre estrutural, ou seja, ele é um elemento que integra a organização econômica e política da sociedade” (ALMEIDA, 2019, p. 20). Isso permite deslocar a discussão da intenção individual para os efeitos produzidos pelas estruturas, sem transformar qualquer grade em prova automática de racismo. A pergunta institucional é se os efeitos sociais e raciais de uma política de segurança foram considerados. Se uma forma de controle produz efeitos desiguais sobre pertencimento, vigilância ou circulação, esses efeitos precisam ser identificados e discutidos.

A questão racial, portanto, não precisa ser utilizada como acusação automática para ser relevante. Basta reconhecer que uma universidade que produz conhecimento sobre desigualdade também precisa examinar criticamente os efeitos de suas próprias decisões espaciais. A instituição não precisa ter pretendido excluir para ser obrigada a avaliar se determinada intervenção produz experiências diferentes de vigilância, pertencimento e liberdade entre os grupos que utilizam o campus.

Arquitetura, educação e controle

A dimensão educativa da universidade não termina no conteúdo das disciplinas. A instituição também educa pela maneira como organiza a convivência, a circulação e a ocupação de seus espaços. A arquitetura comunica valores e naturaliza comportamentos. Um campus integrado e acessível produz uma experiência diferente daquela criada por um espaço progressivamente marcado por barreiras. Isso não significa atribuir uma mensagem única às grades, mas reconhecer que a estrutura física também participa da experiência universitária.

A dimensão educativa da universidade também passa pela relação que os sujeitos estabelecem com o mundo concreto em que vivem. O campus não é apenas o lugar onde as aulas acontecem. É o espaço no qual estudantes, professores, trabalhadores e visitantes circulam, convivem, encontram diferenças, constroem pertencimentos e experimentam cotidianamente as relações institucionais.

Se a educação não se limita à transmissão de conteúdos, também não pode ser indiferente à maneira como o espaço universitário é organizado e às relações que essa organização produz. Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire rompe com a ideia de uma educação baseada em sujeitos passivos diante de uma realidade previamente organizada e afirma que “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1987, p. 39).

Se os sujeitos se educam na relação com o mundo, então o próprio espaço universitário precisa ser considerado parte dessa experiência educativa. Que relação com a autonomia é produzida quando a circulação passa a ser cada vez mais condicionada por barreiras? Que experiência de participação é construída quando decisões que alteram fisicamente o espaço cotidiano da comunidade acadêmica são percebidas apenas como questões administrativas? Quem define como esse espaço deve ser organizado? Quem participa dessa definição? E até que ponto aqueles que vivem diariamente a universidade são considerados sujeitos capazes de participar da construção das decisões que interferem diretamente em sua experiência de circulação e pertencimento?

A questão não é afirmar que toda decisão administrativa precise ser submetida individualmente à comunidade, nem transformar uma grade em instrumento de opressão por sua simples existência. A questão é compreender que uma universidade comprometida com formação crítica não pode separar completamente educação, espaço e relações de poder. Se o ambiente universitário também participa da formação dos sujeitos, as formas de organizar, limitar e regular esse ambiente precisam ser submetidas à reflexão. Uma arquitetura que estabelece fronteiras, define percursos e condiciona acessos não apenas resolve uma questão funcional. Ela também produz uma determinada experiência de universidade. 

É nesse sentido que Pedagogia do Oprimido amplia a discussão sobre arquitetura, educação e controle. A educação problematizadora não parte de uma realidade que deve simplesmente ser aceita, mas de uma realidade que pode ser interrogada, compreendida e transformada. Aplicada à experiência universitária, essa perspectiva permite formular uma pergunta incômoda: se a universidade ensina seus estudantes a questionar criticamente a realidade, por que a própria organização do espaço universitário estaria fora do alcance desse questionamento? O campus também precisa poder ser problematizado por aqueles que o vivem.

Mas onde termina a segurança e começa o controle? Até que ponto uma universidade pode modificar sua arquitetura para responder a um problema específico sem transformar essa própria arquitetura em instrumento permanente de vigilância e restrição da circulação? Se o problema inicial é impedir a entrada de automóveis em determinados corredores, qual seria o limite lógico dessa política de contenção? Depois das grades, virão catracas? Depois das catracas, a identificação obrigatória de cada pessoa que entra? Em algum momento, será necessário apresentar crachá para atravessar determinados espaços, comprovar que se é estudante, servidor, professor ou visitante e explicar por que se está circulando naquele território?

A pergunta não é exagerada porque a arquitetura também comunica uma determinada concepção de instituição. Uma universidade pode ser pensada como um espaço de circulação de conhecimento, encontro, debate, convivência e produção intelectual, mas também pode ser progressivamente organizada a partir de mecanismos de identificação, separação e vigilância. Se cada novo problema de segurança for respondido pela criação de uma nova barreira, quem definirá o limite desse processo? E quem poderá dizer quais pessoas devem entrar, quais devem permanecer, quais devem sair e quais precisam justificar sua presença?

É nesse ponto que a relação entre arquitetura e educação deixa de ser apenas uma questão estética ou funcional. A universidade educa também pela maneira como organiza seus espaços e pela experiência que oferece aos corpos que nela circulam. O que uma instituição ensina quando seus espaços são progressivamente estruturados pela lógica da contenção? Que mensagem transmite quando a circulação, antes compreendida como parte natural da vida universitária, passa a depender cada vez mais de barreiras, autorizações e mecanismos de identificação? E que tipo de relação com o espaço público começa a ser construída quando a segurança deixa de significar condições para permanecer e passa a significar condições para entrar, circular e permanecer somente sob determinadas regras de controle?

Nesse sentido, a imagem do cercamento não pode ser tratada apenas como uma questão física. Conceição Evaristo, ao escrever sobre experiências atravessadas por limites e restrições, utiliza a expressão “cercado em suas vontades, em sua liberdade de calar, silenciar ou gritar” (EVARISTO, 2020, p. 30). O contexto de sua escrita é outro e não pode ser transportado mecanicamente para a realidade universitária. A aproximação aqui é outra: compreender como as ideias de cercamento, liberdade e controle carregam dimensões sociais e simbólicas que ultrapassam a estrutura material daquilo que cerca.

Michel Foucault ajuda a compreender essa questão ao demonstrar que a organização espacial pode participar das relações de poder. Em sua análise das instituições modernas, a arquitetura aparece articulada à vigilância e à disciplina, justamente porque a distribuição dos indivíduos no espaço permite observar, localizar, classificar e controlar condutas. O problema, portanto, não está simplesmente na existência de uma grade, de uma porta ou de um mecanismo de segurança isoladamente, mas na possibilidade de que esses elementos passem a compor uma lógica institucional cada vez mais ampla de controle sobre os corpos e sobre a circulação. Como afirma Foucault, “a disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos indivíduos no espaço” (FOUCAULT, 1987, p. 168).

O mesmo rigor precisa orientar o uso de conceitos como necropolítica. Achille Mbembe discute formas de poder relacionadas à exposição de determinadas populações à morte e à produção de mundos marcados pela violência extrema. As grades da Unemat não podem ser classificadas automaticamente como necropolíticas apenas porque produzem contenção. O diálogo possível é mais delimitado: políticas de segurança precisam ser avaliadas também pela forma como distribuem proteção, vulnerabilidade, vigilância e possibilidade de circulação. A precisão conceitual é indispensável para uma crítica institucional consistente.

Não se trata de afirmar que a Unemat já tenha chegado a esse estágio, nem de atribuir à instituição uma intenção de controlar seus estudantes, professores, servidores ou visitantes. Trata-se de questionar antecipadamente o limite de uma lógica que, se não for discutida, pode avançar por etapas aparentemente pequenas e justificáveis. Hoje, uma grade para impedir veículos. Amanhã, uma barreira para controlar determinado acesso. Depois, uma identificação para atravessar determinado espaço. Em seguida, a presença permanente de agentes para verificar quem pode ou não circular. Nesse ponto, a universidade precisaria responder a uma pergunta elementar: segurança para quem, controle de quem e sob quais critérios?

Há ainda uma diferença importante entre fragmentar o espaço e produzir segregação deliberada. Nem toda divisão espacial possui a mesma natureza, assim como nem toda medida de controle produz automaticamente uma política de exclusão. A questão está em compreender os efeitos concretos e simbólicos dessas escolhas e em perguntar quais corpos, trajetórias e experiências são considerados quando uma instituição reorganiza fisicamente seu território.

Uma instituição de ensino superior não pode tratar a arquitetura como se ela fosse neutra. Cada muro, grade, portão, catraca ou mecanismo de vigilância interfere na experiência concreta de quem utiliza o espaço. Se a universidade pretende formar sujeitos críticos, produzir conhecimento e defender a liberdade intelectual, precisa também refletir criticamente sobre as formas pelas quais organiza, limita e autoriza a circulação dentro de seu próprio território. A segurança pode proteger a universidade, mas não deveria transformar a universidade em um espaço no qual a liberdade de circulação seja gradualmente substituída pela necessidade permanente de comprovar que se tem o direito de estar ali.

Transparência e responsabilidade institucional

É justamente aqui que a discussão retorna ao problema concreto. Se a finalidade principal era impedir a entrada de veículos nos corredores, a Unemat precisa demonstrar por que essa finalidade exigiu uma intervenção tão abrangente. A instituição deve informar o valor total gasto, o procedimento de contratação, a justificativa técnica, os critérios utilizados para escolher as grades, as alternativas consideradas, os riscos que a medida pretende enfrentar e os resultados esperados.

A cobrança precisa ser objetiva. Quanto custou a instalação? Quem executou o serviço? Houve estudo técnico prévio? Quais alternativas foram analisadas e por que foram descartadas? Qual problema de segurança a intervenção pretende resolver? Qual é a meta? Como o resultado será medido? Em quanto tempo será avaliado? Quais problemas permanecerão sendo enfrentados por outros meios? A comunidade acadêmica tem direito a essas respostas porque a intervenção foi realizada em um espaço público e com recursos públicos. 

A transparência também precisa alcançar os documentos que fundamentaram a decisão. Estudos, projetos, justificativas, procedimentos de contratação, valores, responsáveis e critérios técnicos não podem ser tratados como detalhes irrelevantes quando uma intervenção modifica permanentemente o espaço coletivo. Se a solução foi considerada necessária, a instituição precisa demonstrar essa necessidade. Se foi considerada a alternativa mais adequada, precisa explicar por quê. Se os resultados ainda não podem ser medidos, precisa estabelecer como e quando serão avaliados.

A cobrança deve alcançar também os problemas que as grades não resolvem. Se existem estacionamentos escuros, qual é o cronograma para melhorar a iluminação? Se existem ocorrências de furtos, danos ou situações de vulnerabilidade, quais medidas de prevenção e resposta estão sendo adotadas? Se a preocupação é a entrada de veículos, como o controle será fiscalizado? Se já existe segurança no campus, como sua atuação será articulada com iluminação, monitoramento, circulação e organização logística? Uma política de segurança precisa apresentar não apenas estruturas, mas resultados verificáveis.

O dinheiro público precisa ser tratado com a mesma objetividade. Não basta dizer que as grades foram instaladas para aumentar a segurança. É necessário demonstrar qual problema será enfrentado, quanto será gasto, qual resultado se espera e como esse resultado será verificado. Uma obra visível não é, por si só, prova de efetividade. O investimento precisa ser relacionado ao problema que motivou o gasto e aos resultados concretos produzidos.

Uma cobrança que precisa de resposta

Não é possível olhar para as grades apenas como objetos metálicos. Elas materializam uma decisão sobre circulação, segurança, prioridade orçamentária e organização de um espaço público. A discussão não é contra a segurança. É uma cobrança para que ela seja planejada, proporcional ao risco, transparente em seus custos e demonstrável em seus resultados. A universidade pode controlar a circulação de veículos sem transformar seus corredores em espaços de confinamento. Pode melhorar a iluminação sem cercar a experiência universitária. Pode ampliar o monitoramento sem produzir uma paisagem permanentemente marcada pelo controle.

O ponto central é a proporcionalidade entre problema e resposta. Se a questão é impedir a entrada de veículos, o controle deve atingir prioritariamente os veículos. Se existem áreas escuras, é preciso iluminá-las. Se existem riscos nos estacionamentos, é preciso enfrentá-los. Se existem problemas de vigilância, é preciso fortalecer os mecanismos de monitoramento e resposta. Uma política pública não deveria transformar um problema específico em uma alteração generalizada da experiência espacial de toda a comunidade sem demonstrar a necessidade dessa escolha.

Por isso, a Unemat precisa prestar contas de forma concreta e documentada. Deve informar o valor gasto, o procedimento de contratação, a empresa ou responsável pela execução, os critérios técnicos utilizados, as alternativas avaliadas, a justificativa para a escolha das grades, os riscos que se pretende reduzir, os resultados esperados e o prazo para avaliação. Deve tornar públicos os documentos que fundamentaram a intervenção e apresentar as medidas previstas para os problemas que as grades não resolvem. Deve demonstrar, ainda, como iluminação, vigilância, circulação, patrimônio, acessibilidade e proteção das pessoas estão sendo articulados em uma política de segurança efetiva.

A questão, portanto, não é simplesmente sobre grades. É sobre que tipo de universidade pública está sendo construída fisicamente diante da própria comunidade. Uma instituição pode instalar barreiras para impedir a entrada de carros e produzir, ao mesmo tempo, uma paisagem que comunica contenção. Pode afirmar que pretende garantir segurança e manter sem resposta problemas concretos de iluminação e vulnerabilidade. Pode utilizar dinheiro público em uma intervenção permanente e não explicar adequadamente seus custos, critérios e resultados. É exatamente por isso que a transparência precisa deixar de ser uma promessa abstrata e tornar-se obrigação concreta.

A pergunta que fica é simples, mas não pequena: estamos protegendo a comunidade universitária ou estamos ensinando silenciosamente que segurança e segregação são a mesma coisa?

Se a Unemat pretende ser uma universidade pública comprometida com conhecimento, pensamento crítico, convivência e transformação social, precisa aplicar esses princípios às decisões que toma sobre seu próprio território. Não basta proteger pessoas. É preciso garantir que a forma de protegê-las não produza novas formas de restrição, vigilância e afastamento. Segurança não pode ser construída à custa da liberdade de circulação. Controle não pode substituir planejamento. Gasto público não pode escapar da transparência. E uma instituição dedicada à formação crítica não pode deixar de submeter suas próprias escolhas ao questionamento crítico. 

As grades não são apenas estruturas metálicas. Elas representam uma decisão institucional sobre quem circula, como circula e como o espaço público universitário será experimentado. Por isso, a Unemat precisa explicar, com documentos, números e critérios objetivos, quanto gastou, por que escolheu essa solução, quais alternativas foram consideradas, quais riscos pretende enfrentar e quais resultados serão capazes de justificar a intervenção. Se a resposta não puder ser demonstrada, a estrutura permanecerá como uma marca física de uma decisão que ainda precisa ser explicada.

Uma universidade pública não pode ensinar liberdade dentro da sala de aula e praticar contenção no espaço que seus estudantes, professores e trabalhadores precisam atravessar todos os dias. Não pode defender pensamento crítico e tratar suas próprias decisões como algo que não precisa ser questionado. Não pode falar em democracia, pertencimento e inclusão enquanto transforma progressivamente a circulação em uma experiência mediada por barreiras.

A questão, no fim, é maior do que as grades. É sobre o limite entre proteger e controlar. É sobre o limite entre organizar e restringir. É sobre o limite entre administrar um espaço público e transformar esse espaço em um território cada vez mais cercado. Se a segurança exige grades, a universidade precisa explicar por quê. Se exige vigilância, precisa explicar até onde. Se exige controle, precisa dizer quem controla, quem é controlado e segundo quais critérios.

Porque uma universidade que pretende formar sujeitos livres, críticos e capazes de questionar o mundo precisa ser capaz de suportar o questionamento sobre si mesma. E se a liberdade precisa ser cercada para que a segurança exista, talvez seja necessário perguntar não apenas de que estamos nos protegendo, mas que tipo de universidade estamos construindo ao fazer isso.

Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

Comentários dos leitores

Carregando comentários…