Quando o poder apaga a visão da população: o dinheiro público, as relações escusas e os criminosos de colarinho branco (CHEQUINHOS).

Quando o poder apaga a visão da população: o dinheiro público, as relações escusas e os criminosos de colarinho branco (CHEQUINHOS).

Por CristianoTorres1977

15.09.2026

Foto produzida por IA

Infelizmente, o que acontece em Santos também ocorre em muitos outros municípios brasileiros. São 5.569 municípios no Brasil, e não é difícil encontrar administrações públicas que utilizam mecanismos de contratação e pagamento que podem abrir brechas para favorecimentos políticos, precarização das relações de trabalho e utilização da máquina pública para interesses particulares.

Falta pouco para acabarem com o concurso público e para que políticos passem a colocar somente quem querem para trabalhar, seja nos cargos comissionados, seja nos destinados à força de trabalho geral, com ou sem especialização.

Quando a escolha de quem trabalha no serviço público passa a depender cada vez mais da vontade política de quem ocupa o poder, a impessoalidade, a moralidade e a eficiência da administração pública ficam ameaçadas.

O concurso público, que deveria funcionar como uma barreira contra o apadrinhamento, começa a ser tratado como obstáculo por aqueles que preferem ter ao redor de si pessoas escolhidas pela proximidade e pela confiança política.

Esse tipo de maniqueísmo pode destruir os serviços públicos do Brasil. A administração não pode funcionar como extensão dos interesses pessoais, políticos ou familiares de quem ocupa temporariamente o poder.

Quando isso acontece, abre-se espaço para relações de dependência, favorecimentos, desvio de função e utilização de trabalhadores em atividades diferentes daquelas para as quais foram contratados, muitas vezes sem a correspondente remuneração.

A máquina pública começa, então, a produzir uma espécie de servidão administrativa moderna: não é mais necessário colocar uma corrente no trabalhador quando se pode colocar sobre ele a ameaça silenciosa de perder a função, o contrato ou a renda.

 

E isso precisa ser observado com muita atenção na educação e na saúde. Na educação, imagine começarem a ensinar por meio da Bíblia aquilo que deveria ser conduzido dentro dos princípios da educação pública e da laicidade do Estado.

Não estou falando do direito individual à fé ou da liberdade religiosa. Estou falando da possibilidade de uma convicção particular ser transformada em instrumento de orientação de uma estrutura pública que deveria respeitar a pluralidade.

A escola pública não pode se transformar em extensão de uma igreja, assim como o Estado não pode escolher uma determinada interpretação religiosa para governar a vida daqueles que dependem de seus serviços.

Na saúde, imagine gestores proibindo ou restringindo procedimentos médicos por razões religiosas, como a realização ou o recebimento de transfusão de sangue (VACINAS). Imagine uma estrutura administrativa na qual a crença pessoal de quem ocupa uma função de poder passe a determinar aquilo que pode ou não pode ser oferecido à população.

A saúde pública não pode ser submetida à fé particular de um gestor. O mesmo Estado que deve garantir o direito de cada indivíduo exercer sua liberdade religiosa não pode transformar uma crença individual em regra administrativa para todos.

Esse processo pode produzir aquilo que considero um nepotismo velado, não necessariamente limitado à contratação direta de parentes, mas construído por meio de relações pessoais, políticas, grupos de confiança, indicações e diferentes mecanismos capazes de criar uma rede de pessoas dependentes daqueles que controlam a máquina pública.

É o velho apadrinhamento político vestindo roupa nova, entrando pela porta da frente com aparência administrativa e saindo pelos fundos carregando relações de dependência.

E existe ainda uma questão que precisa ser investigada com profundidade: o caminho percorrido pelo dinheiro público. Não se pode descartar, como hipótese, que estruturas dessa natureza possam ser utilizadas para desvios de recursos e, em situações mais graves, para mecanismos de ocultação ou lavagem de dinheiro.

Também precisa ser considerada, quando houver elementos que justifiquem a investigação, a possibilidade de utilização de empresas fantasmas, empresas de fachada ou até estruturas religiosas para movimentar recursos e dificultar a identificação de sua origem ou destino. Não estou afirmando que isso esteja acontecendo em Santos. Estou levantando uma hipótese diante de mecanismos que, quando utilizados de maneira criminosa, podem transformar a aparência de legalidade em esconderijo para aquilo que não deveria estar escondido.

Porque não basta saber quem recebeu o dinheiro. É preciso saber por qual serviço recebeu, quem autorizou o pagamento, quem realizou a indicação, qual era a finalidade da contratação, se o serviço foi efetivamente prestado e, principalmente, qual foi o destino final desses recursos. O dinheiro público não desaparece simplesmente. Ele percorre caminhos. E é justamente nesses caminhos que muitas vezes estão as respostas que os documentos isolados não mostram.

É assim que se deve combater o desvio de dinheiro público: seguindo o dinheiro.

O problema dos chamados criminosos de colarinho branco é justamente a possibilidade de utilizar estruturas aparentemente legais para esconder práticas ilícitas.

O crime de colarinho branco não precisa aparecer com uma arma na mão ou com o rosto coberto. Muitas vezes aparece de terno, assina documentos, participa de reuniões, frequenta bons restaurantes, circula entre autoridades e deixa atrás de si uma pilha de papéis perfeitamente organizados. O papel pode estar em ordem enquanto aquilo que existe por trás dele está completamente fora da ordem.

Um pagamento pode possuir documentação formal e, ainda assim, precisar ser investigado quando existem indícios de que a estrutura utilizada serviu para favorecer determinadas pessoas ou grupos.

Por isso, a existência de documentos ou a aprovação de determinadas prestações de contas não deveria funcionar como uma blindagem eterna contra novas fiscalizações quando surgirem fatos ou indícios que justifiquem uma investigação.

E há algo ainda mais grave: quando os agentes públicos e políticos envolvidos em determinadas estruturas possuem relações de proximidade com aqueles que deveriam fiscalizá-los e responsabilizá-los. Não estou afirmando que toda relação pessoal produza conluio.

Estou apontando o problema de uma estrutura em que políticos, empresários, agentes públicos e pessoas que ocupam posições estratégicas dentro das instituições podem compartilhar os mesmos círculos sociais, os mesmos condomínios, os mesmos restaurantes, as mesmas amizades e os mesmos espaços de convivência. A pergunta inevitável é: onde termina a amizade e começa o conflito de interesses?

Quando todos se conhecem, todos se encontram e todos circulam nos mesmos ambientes, quem fiscaliza quem?

É justamente aí que a Justiça local e estadual precisa ser observada com atenção. Não porque toda decisão judicial seja determinada por relações pessoais, mas porque uma sociedade não pode aceitar que a proximidade entre poder político, poder econômico e estruturas institucionais produza uma sensação permanente de proteção.

Quando a população começa a acreditar que determinados políticos e agentes públicos dificilmente serão alcançados pelas estruturas locais porque possuem relações de amizade, influência e proximidade com pessoas que ocupam posições estratégicas, a própria credibilidade da Justiça começa a ser corroída.

E quando, para conseguir algum resultado efetivo, a sociedade precisa olhar para instâncias federais e superiores, surge uma pergunta incômoda: por que aquilo que deveria ser enfrentado pelas estruturas mais próximas precisa subir cada vez mais na hierarquia do Estado? Quem está protegendo quem? Quem conhece quem? Quem frequenta a mesa de quem? Quem divide o mesmo condomínio, o mesmo restaurante e os mesmos círculos de poder?

Não é preciso existir uma fotografia de todos sentados à mesma mesa para compreender que relações de proximidade podem produzir blindagens. O poder também se organiza pelo silêncio, pela amizade, pela conveniência e pela reciprocidade. Às vezes, não é necessário combinar nada em voz alta. Basta que todos saibam até onde podem ir.

E Santos já teve um episódio que deveria servir como alerta. Milton Ribeiro, pastor presbiteriano de Santos e ex-ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro, foi preso preventivamente pela Polícia Federal na Operação Acesso Pago, que investigava suspeitas envolvendo a liberação de recursos do FNDE.

O caso envolveu relatos de pedidos de propina em dinheiro e barras de ouro, além da atuação de pastores que, embora não ocupassem cargos formais no governo, tinham acesso privilegiado ao Ministério da Educação.

Não é possível ignorar o simbolismo de um caso no qual religião, poder político, acesso institucional e dinheiro público aparecem tão próximos. A religião pode ser uma dimensão legítima da vida privada, mas torna-se outra coisa quando passa a funcionar como porta de entrada para a máquina pública e para a circulação de recursos.

E é justamente por isso que não se pode tratar como exagero a preocupação com estruturas nas quais religião, política, dinheiro público e relações pessoais começam a se misturar. O problema não está na fé de ninguém. O problema está na utilização da fé, da amizade, da influência ou da posição política como passaporte para dentro da máquina pública.

Esses mecanismos precisam ser observados porque, quando utilizados de maneira sistemática, podem transformar o serviço público em instrumento de poder político e econômico. O trabalhador passa a depender de indicação para entrar, de relações pessoais para permanecer e da vontade de determinados grupos para continuar exercendo sua função.

O serviço público deixa de ser carreira e passa a ser favor. O cargo deixa de ser função de Estado e passa a ser moeda de troca. E o trabalhador, que deveria servir à população, acaba obrigado a olhar para cima para descobrir se ainda poderá continuar trabalhando amanhã.

Isso destrói a lógica do serviço público.

O concurso público existe justamente para garantir critérios objetivos de acesso aos cargos e empregos públicos e proteger a administração dos interesses particulares de quem está temporariamente no poder. Quando essa lógica é substituída por relações de favorecimento, o Estado começa a perder sua impessoalidade. E quando a impessoalidade desaparece, a máquina pública pode se transformar em uma máquina de favores.

É nesse momento que a população também começa a perder a visão. Não porque lhe faltem olhos, mas porque o poder pode construir cortinas suficientemente espessas para impedir que ela enxergue o que acontece atrás dos balcões, dos contratos, dos gabinetes e das relações políticas. As coisas escusas não servem apenas para esconder o dinheiro. Servem também para intimidar quem poderia perguntar de onde ele veio, para onde foi e quem se beneficiou.

A população acuada é mais fácil de administrar.

Uma população que teme perder o emprego, o contrato, o atendimento, o benefício ou até a possibilidade de ser ouvida aprende rapidamente a baixar os olhos.

E quando o Estado, que deveria proteger o cidadão, passa a utilizar sua força para constranger aqueles que questionam seus próprios mecanismos, cria-se uma inversão perversa: o cidadão passa a temer a máquina que deveria estar a seu serviço, enquanto aqueles que deveriam temer a fiscalização parecem cada vez mais confortáveis dentro dela.

É assim que uma estrutura de poder pode se proteger: não apenas escondendo o que faz, mas fazendo com que a população tenha medo de olhar.

E talvez seja justamente essa a parte mais perigosa de tudo. Porque o dinheiro pode ser recuperado, um contrato pode ser cancelado e uma investigação pode ser aberta. Mas quando uma sociedade se acostuma a não perguntar, quando aprende a aceitar o favor como regra e o silêncio como mecanismo de sobrevivência, o problema já deixou de estar apenas nos cofres públicos.

Está na própria democracia.

Santos está indo para o abismo sem fim quando práticas dessa natureza começam a ser naturalizadas. O abismo não aparece de repente. Ele é cavado lentamente, contrato por contrato, indicação por indicação, favor por favor, silêncio por silêncio. Enquanto isso, os donos das chaves continuam entrando pelas portas que a população sequer sabe que existem.

E talvez seja essa a maior ironia: o dinheiro é público, a máquina é pública, os cargos são públicos, os serviços são públicos, mas os caminhos percorridos por tudo isso podem se tornar cada vez mais privados.

Quando a população pergunta demais, dizem que está criando problema.

Quando pergunta de menos, dizem que está tudo dentro da legalidade.

E assim o espetáculo continua: a porta da frente permanece aberta para os mesmos de sempre, enquanto a população fica do lado de fora tentando descobrir por que o Estado, que deveria enxergá-la, parece tão empenhado em não deixar que ela enxergue o que acontece lá dentro.

Cristiano Torres é professor, especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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