Quando o Tambor das Yabás rompe o silêncio do feminicídio

Quando o Tambor das Yabás rompe o silêncio do feminicídio

Por Cidinha Santos

01.06.2026

Imagem: Arte divulgação

A coragem da Unidos da Zona Noroeste em transformar a dor estrutural em manifesto de libertação na passarela do samba, quando apresentou o enredo premiado: Somos netos dos negros que vocês não conseguiram matar! Para o Carnaval 2027 concorre com um dos sambas somente com mulheres compositoras e mais quatro. Apresentação e escolha do samba-enredo acontecem no dia 6 de junho, a partir das 20 horas, na quadra da escola.

O samba nasceu do acolhimento e da resistência. Muito antes de se tornar a maior engrenagem do entretenimento popular do planeta, o gênero encontrou abrigo nos quintais protetores das tias baianas na Pequena África carioca, espaços geridos pela sabedoria e coragem de mulheres negras que salvaguardaram a cultura afro-brasileira da perseguição policial e do preconceito estrutural.

Portanto, quando a escola de samba G.R.C.E.S. Unidos da Zona Noroeste (ZN) abre espaço em seu Carnaval para que um coletivo de compositoras assine uma das obras inscritas pautando o brutal aumento do feminicídio na Baixada Santista, ela não está apenas inovando: está operando um resgate histórico de sua própria essência.

A decisão da agremiação de levar este tema à avenida exige coragem política. O Estado de São Paulo e, de forma alarmante, as cidades da Baixada Santista têm testemunhado uma escalada de violência de gênero que não pode ser tratada como mera estatística de páginas policiais. O feminicídio é o ápice cruel de uma estrutura patriarcal que silencia vozes diariamente. Ao permitir que a arte do Carnaval se torne o megafone dessa denúncia, a Unidos da Zona Noroeste cumpre a função social mais nobre do samba: ser crônica, protesto e agente de transformação.

A poesia como escudo e flecha

A composição assinada por Juliana Ribeiro, Elenira Ribeiro, Sol Carvalho, Lucia Carvalho, Madu Barbosa e Mano Jotta — uma das cinco inscritas que disputarão o pavilhão no dia 06 de junho — é um exemplo primoroso de como a densidade do sofrimento pode ser lapidada em lirismo libertador. O samba recusa o papel do lamento passivo. A dor existe, é reconhecida, mas é imediatamente sobreposta pela força ancestral: "Vem de longe / O toque do meu tambor / A força que a dor não consegue calar / Na voz ancestral de nossas Yabás".

Ao evocar as Yabás, o coletivo de autoras estabelece uma linha do tempo espiritual e histórica onde o feminino é sinônimo de poder, criação e liderança. O samba estabelece um panteão onde figuras nacionais como Maria da Penha e Leci Brandão caminham ao lado de heroínas da história local santista, como a Irmã Maria Dolores e Brandina Fiuza, esta última um pilar fundamental na manutenção do Quilombo do Jabaquara. Esse resgate territorializa a luta, lembrando ao espectador que a Baixada Santista é, historicamente, solo fertilizado pela coragem de mulheres pretas e periféricas.

O papel da arte na desconstrução do silêncio

Um dos pontos mais geniais e corajosos da obra reside na sua capacidade de dialogar diretamente com as engrenagens cotidianas da violência. O verso "Meter a colher" quebra o secular ditado popular que prega a omissão social em brigas domésticas. O samba decreta: a omissão é cúmplice da morte. Ao incorporar o número "180" à sua célula rítmica, o samba-enredo transforma a avenida em um balcão de utilidade pública, lembrando que a folia também é espaço de educação e salvaguarda de vidas.

O samba também alcança um patamar de sensibilidade tocante ao saudar as Mães de Maio, movimento que nasceu na Baixada Santista a partir do luto materno diante da violência institucional e policial. Transformar a dor dessas mães em uma "salva de palmas pra luta de toda mulher" é validar a memória de quem o Estado muitas vezes tenta invisibilizar. O girassol, evocado na letra, surge não como mera alegoria botânica, mas como semente viva do legado de Marielle Franco, sinalizando que a luta por justiça floresce mesmo sob o asfalto da opressão.

O amanhecer prometido pelo Galo

As cores da Unidos da Zona Noroeste — o verde, o vermelho e o branco — são ressignificadas na letra como sementes plantadas no canteiro do mundo para gerar esperança. Contudo, é no uso metafórico de seu símbolo máximo, o Galo, que a obra atinge seu ápice lírico. O cantar do Galo e o raiar do dia simbolizam o fim da escuridão e da vulnerabilidade que a noite impõe historicamente às mulheres. É o prenúncio de uma rotina sem medo, onde o caminhar unido afasta as sombras da insegurança.

O Carnaval sempre foi o palco dos espelhos da sociedade. No dia 06 de junho, quando os cinco sambas cruzarem a quadra da agremiação, a comunidade da Zona Noroeste estará diante de uma escolha que vai além do ritmo e da métrica perfeita. Estará diante da oportunidade de chancelar um hino-manifesto. Se a arte tem o poder de curar e revolucionar, o samba-enredo dessas compositoras já nasce vitorioso, pois prova que o pavilhão da ZN está pronto para ser a voz das que o machismo tentou calar, mostrando que, quando as mulheres marcham juntas, a avenida inteira é obrigada a cantar a mudança.

Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

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