Quem governa o Brasil não é o presidente

Quem governa o Brasil não é o presidente Por CristianoTorres1977

Quem governa o Brasil não é o presidente

Quem governa o Brasil não é o presidente

Por CristianoTorres1977

12.01.2026

Já é amplamente reconhecido que o governo Lula, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, se insere no campo do centro-esquerda institucional. Isso, por si só, já impõe limites claros à sua atuação. Não se trata de ingenuidade, tampouco de desconhecimento histórico. Trata-se de compreender que, em um Estado capitalista periférico como o Brasil, o presidente da República não governa livremente, mas opera dentro de uma engrenagem de poder que o antecede, o condiciona e o vigia. Lula não é um governante autônomo. Ele é um mediador. Um gestor de conflitos sociais a serviço da estabilidade do sistema.

Ainda que seu governo dialogue com pautas do trabalhador, dos invisibilizados, das minorias sociais, da população negra, pobre, LGBTQIA+, das mulheres, das pessoas com deficiência, dos idosos, das crianças, dos indígenas e dos imigrantes, esse diálogo não ocorre por ruptura estrutural, mas por contenção. As políticas afirmativas não existem para subverter a ordem. Elas existem para amortecer tensões. São mecanismos de controle social sofisticados, cujo objetivo central é impedir o colapso, a revolta e a insurgência popular. Não há revolução em curso porque há concessões mínimas calculadas.

Quem de fato governa o país não são os rostos expostos na mídia, nem os políticos de carreira que ocupam cargos eletivos. O poder real está concentrado nos grandes proprietários dos meios de produção, na elite financeira, nos conglomerados econômicos que operam acima da casa dos bilhões. Esses atores não aparecem, não discursam, não pedem voto. Eles mandam. E mandam por meio de representantes, de pressões institucionais, de chantagens econômicas e de controle sobre o Congresso Nacional.

O presidente depende integralmente do Congresso. Deputados e senadores são peças centrais desse jogo. Sem eles, nada avança. Nenhuma política pública se sustenta. Nenhum programa se consolida. Tudo precisa ser negociado, costurado, diluído. A governabilidade é refém de alianças espúrias, interesses cruzados e compromissos que, muitas vezes, anulam o discurso progressista inicial. O Executivo não governa sozinho. Ele administra permissões.

É nesse contexto que a classe trabalhadora precisa compreender uma verdade incômoda. Não haverá valorização real e estrutural do professor. Não haverá investimento profundo e transformador na educação pública. Isso não é acaso. É projeto. Uma educação pública de alta qualidade ameaça diretamente o modelo econômico vigente. Uma população educada questiona, organiza, reivindica e rompe. Uma população educada não aceita trabalho precarizado, salários miseráveis e exploração naturalizada.

A lógica é simples e perversa. Quanto menor o acesso ao conhecimento, mais fácil é dominar. Quanto mais sucateada a educação, mais abundante é a mão de obra barata. Isso não é falha administrativa. É estratégia de classe. A precarização do trabalho docente faz parte de um projeto histórico de manutenção da desigualdade social e racial no país.

Essa burguesia que opera o poder no Brasil é herdeira direta do colonialismo, do racismo estrutural e do capitalismo predatório. É uma elite majoritariamente branca, forjada desde os burgos europeus, consolidada com a expansão do capitalismo mercantil e fortalecida por estruturas religiosas que sempre caminharam lado a lado com o poder econômico. A instrumentalização da fé, desde a Reforma Protestante até o neopentecostalismo contemporâneo, serviu e ainda serve como ferramenta de controle, submissão e alienação.

Religião e poder caminham juntos quando o objetivo é domesticar consciências. O medo, a culpa, a promessa de salvação futura e a obediência irrestrita à autoridade constroem sujeitos dóceis. Esse mecanismo não apenas sustentou a escravidão, como continua operando na escravização simbólica, mental e econômica da população pobre e negra.

O racismo não é um desvio moral. É um pilar do sistema. A elite não quer pessoas negras ocupando espaços de poder. Não quer negros como professores universitários, juízes, desembargadores, dirigentes, executivos, CEOs ou líderes institucionais. Quer negros invisibilizados, subalternizados, confinados à precariedade. Essa é a lógica do colonizador. Quando a escravidão formal se tornou inviável, reinventou-se a escravidão mental, social e econômica.

O poder continua concentrado. O Congresso é majoritariamente branco. As grandes corporações são dirigidas por brancos. O Judiciário é branco. As decisões estratégicas são tomadas por brancos. O presidente, qualquer que seja, precisa governar sob essa vigilância constante. Lula não escapa disso. Ele não age por vontade própria. Ele age dentro do que é permitido pelos que realmente mandam.

Portanto, acreditar em aumentos salariais significativos, em ruptura com a lógica da exploração ou em uma revolução educacional profunda é ignorar a estrutura real do poder. O Estado não age contra seus financiadores. Ele os protege. O discurso pode ser progressista. A prática é condicionada. O sistema não se reforma a partir de dentro sem confronto. E confronto é exatamente o que a burguesia não permitirá.

Esse é o ponto central. Não se trata de acreditar ou desacreditar em Lula como indivíduo. Trata-se de compreender que o problema é estrutural, histórico e de classe. Enquanto o poder econômico mandar, o poder político obedecerá. E enquanto isso não for enfrentado de forma consciente, organizada e radical, qualquer avanço será sempre limitado, controlado e insuficiente.

CristianoTorres1977 é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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