Racismo Ambiental: a pobreza tem cor

Por Alexandre Miguel de Souza
17.09.2026
Foto: Agência Brasil
O racismo ambiental também se manifesta na forma como as cidades são planejadas, administradas e distribuídas. Em sociedades profundamente desiguais como a brasileira, os impactos da ausência de políticas públicas recaem, de maneira desproporcional, sobre a população mais pobre — em sua maioria negra.
Quando o transporte público é insuficiente, caro ou demora excessivamente, quem mais sofre é quem depende dele para trabalhar, estudar e acessar serviços públicos.
Em Santos, moradores relatam ônibus circulando com intervalos que ultrapassam 40 minutos em determinadas linhas e horários. Isso não é apenas um problema de transporte: é também uma barreira à mobilidade social.
O mesmo acontece quando bairros inteiros ficam alagados após chuvas intensas pela insuficiência de investimentos em obras de macrodrenagem e microdrenagem.
Enquanto áreas mais estruturadas contam com maior proteção e infraestrutura, comunidades vulneráveis convivem com enchentes, perdas materiais, doenças, interrupção do transporte e riscos à própria vida.
A população mais pobre também é frequentemente a que mais sofre com o descarte irregular de resíduos, com a degradação ambiental e com a ausência de infraestrutura adequada.
O antigo lixão do Sambaiatuba, em São Vicente, é um exemplo emblemático de como populações socialmente vulneráveis podem ser expostas historicamente a problemas ambientais que não deveriam existir em uma sociedade que busca justiça social.
Não estamos falando apenas de meio ambiente. Estamos falando de direito à cidade, dignidade, saúde, mobilidade e oportunidade.
O racismo ambiental precisa ser compreendido dentro de uma estrutura histórica de desigualdade. Quando investimentos públicos não chegam de maneira justa aos territórios mais vulneráveis, as desigualdades se reproduzem e a possibilidade de ascensão social fica ainda mais distante.
Por isso, combater o racismo ambiental exige investimento em transporte público de qualidade, drenagem urbana, habitação digna, saneamento, gestão de resíduos, áreas verdes, adaptação às mudanças climáticas e políticas públicas capazes de reduzir as desigualdades territoriais.
A pobreza tem cor neste país, herança de um passado escravista.
E enquanto o racismo continuar estruturando oportunidades e distribuindo de forma desigual os riscos ambientais, a justiça social continuará sendo uma luta urgente.

Alexandre Miguel de Souza é escritor e poeta santista

Comentários dos leitores
Carregando comentários…