Santos e o modelo de cidade revelado pelo trabalho infantil

Santos e o modelo de cidade revelado pelo trabalho infantil

Por CristianoTorres1977

18.06.2026

Foto: Tony Valentte

A recente reportagem publicada pelo jornal Os Inconfidentes sobre o aumento da presença de crianças e adolescentes trabalhando nos semáforos, ruas comerciais e áreas turísticas de Santos trouxe novamente à superfície uma realidade que muitos preferem não enxergar.

O debate público rapidamente se concentrou na necessidade de retirar essas crianças das ruas, intensificar fiscalizações e ampliar a atuação dos órgãos de proteção. Essas medidas são necessárias. Nenhuma sociedade comprometida com os direitos da infância pode naturalizar a presença de crianças trabalhando em cruzamentos, vendendo balas, doces ou realizando qualquer atividade econômica para complementar a renda familiar.

No entanto, uma questão anterior permanece praticamente ausente do debate: quem produz as condições sociais que levam essas crianças para as ruas?

A presença de crianças trabalhando não surge espontaneamente. Ela é resultado de processos históricos, econômicos e sociais que atravessam gerações. O trabalho infantil não pode ser compreendido apenas como um problema individual, familiar ou moral. Ele é um indicador social. Ele revela como uma cidade distribui, ou deixa de distribuir, oportunidades, proteção social e cidadania.

Quando uma criança ocupa um semáforo para vender balas, a questão não se limita à criança. É necessário perguntar quem são seus pais, onde essa família vive, quais oportunidades educacionais possui, qual é sua renda, quais serviços públicos acessa e quais perspectivas de mobilidade social estão disponíveis para seu futuro. É nesse ponto que o debate se torna mais desconfortável.

Santos é uma das cidades economicamente mais importantes do Brasil. Possui o maior porto da América Latina, movimenta bilhões de reais todos os anos, concentra investimentos públicos e privados e frequentemente aparece em rankings de qualidade de vida. Entretanto, ao lado dessa imagem de prosperidade, existe outra cidade que raramente ocupa o centro das discussões institucionais.

Existe a cidade das palafitas.

Existe a cidade dos morros.

Existe a cidade da Zona Noroeste.

Existe a cidade das famílias que vivem em condições precárias de habitação, saneamento, transporte e acesso a oportunidades.

Existe a cidade dos trabalhadores que passam horas em deslocamentos diários para ocupar postos de trabalho marcados pela informalidade, pela terceirização e pela crescente precarização das relações laborais.

A criança que aparece no semáforo não é o início dessa história. Ela é o resultado visível dela.

O geógrafo Milton Santos argumentava que o espaço urbano não é produzido de forma neutra. As cidades distribuem recursos, equipamentos públicos, infraestrutura e oportunidades de maneira desigual. Essa distribuição desigual produz territórios distintos dentro de uma mesma cidade. Em alguns espaços, encontram-se escolas de qualidade, equipamentos culturais, áreas de lazer, acesso facilitado à saúde e oportunidades profissionais. Em outros, encontram-se ausências.

Quando observamos a presença recorrente de crianças trabalhando em áreas centrais de Santos, somos obrigados a perguntar: quais oportunidades concretas estão sendo oferecidas às famílias que vivem nos territórios mais vulneráveis da cidade?

Existe uma política robusta de educação integral?

Existe uma rede ampla de contraturno escolar?

Existem cursos gratuitos de idiomas, informática e qualificação profissional acessíveis às populações periféricas?

Existem projetos esportivos permanentes distribuídos de forma equitativa pelos bairros populares?

Existem políticas consistentes de formação profissional voltadas aos filhos dos trabalhadores que sustentam parte significativa da economia local?

Existe planejamento para romper ciclos históricos de pobreza?

Essas perguntas são tão importantes quanto a fiscalização do trabalho infantil.

Talvez sejam ainda mais importantes.

 

Retirar uma criança da rua é uma medida emergencial necessária. Mas o que acontece depois? Quais caminhos estarão disponíveis para ela? Quais oportunidades estarão abertas para sua família? Quais mecanismos de proteção impedirão que ela retorne à mesma situação alguns meses depois?

O educador Paulo Freire defendia que a educação não deveria funcionar apenas como instrumento de adaptação à realidade, mas como instrumento de transformação da própria realidade. Essa reflexão permanece atual. Não basta impedir que crianças trabalhem. É necessário construir condições para que elas possam estudar, permanecer na escola, desenvolver projetos de vida e acessar oportunidades que seus pais muitas vezes nunca tiveram.

Da mesma forma, Darcy Ribeiro alertava que a crise da educação brasileira não era uma crise, mas um projeto histórico de exclusão. Quando determinados grupos sociais permanecem afastados do acesso pleno à educação, ao conhecimento e à mobilidade social, as desigualdades deixam de ser acidentes e passam a reproduzir-se continuamente.

É impossível discutir trabalho infantil sem discutir trabalho adulto.

Quem são os pais dessas crianças?

Onde trabalham?

Quanto recebem?

Possuem estabilidade?

Possuem qualificação profissional?

Conseguem sustentar suas famílias apenas com a renda obtida pelo próprio trabalho?

Uma cidade que pretende enfrentar seriamente o trabalho infantil precisa responder também a essas perguntas.

Se os pais permanecem inseridos em relações precárias de trabalho, recebendo salários insuficientes para garantir condições dignas de moradia, alimentação e educação, a vulnerabilidade continuará sendo reproduzida dentro dos próprios lares.

Antes de chegar ao semáforo, essa criança já percorreu outro caminho. Ela saiu de uma casa que muitas vezes não possui saneamento adequado. Saiu de territórios marcados pela vulnerabilidade ambiental. Saiu de moradias onde famílias inteiras compartilham espaços reduzidos e convivem diariamente com a insegurança habitacional. Em muitos casos, vivem em palafitas erguidas sobre o mangue, em habitações improvisadas ou em pequenos imóveis alugados que consomem parcela significativa da renda familiar. O trabalho infantil não começa na rua. Ele começa muito antes, nas condições materiais de existência produzidas pela própria organização desigual da cidade.

Nesse sentido, o trabalho infantil revela algo maior do que a situação individual de determinadas crianças. Ele revela contradições estruturais do próprio modelo de cidade.

Uma cidade pode movimentar bilhões e ainda assim produzir exclusão.

Pode exibir indicadores positivos e ainda conviver com territórios marcados pela ausência.

Pode celebrar o crescimento econômico e, simultaneamente, conviver com famílias que permanecem invisíveis para grande parte das políticas públicas.

A questão central não é apenas por que existem crianças vendendo balas nos semáforos.

A questão central é por que, em uma das cidades mais importantes do país, ainda existem famílias cuja sobrevivência depende que crianças ocupem esses espaços.

Talvez a discussão sobre o trabalho infantil deva começar exatamente onde normalmente termina.

Não apenas na criança que está na rua.

Mas nas estruturas sociais, econômicas e educacionais que a colocaram ali.

Porque o problema não começa no semáforo. Ele apenas se torna visível nele.

Se existe uma pergunta capaz de revelar a profundidade dessa discussão, ela é simples: o que a cidade oferece concretamente para as famílias que vivem nos territórios mais vulneráveis de Santos?

A pergunta é importante porque o trabalho infantil não nasce da ausência de fiscalização. Ele nasce da ausência de oportunidades. Ele nasce quando famílias inteiras passam a viver permanentemente na fronteira da sobrevivência, onde qualquer complemento de renda pode representar a diferença entre comer ou não comer, entre pagar ou não pagar o aluguel, entre permanecer ou não permanecer no território onde vivem.

 

Nesse ponto, a discussão deixa de ser apenas sobre infância e passa a ser também sobre cidade.

Santos é uma das principais engrenagens econômicas do país. O Porto movimenta bilhões de reais anualmente, conecta o Brasil ao mercado internacional e sustenta uma extensa cadeia logística, comercial e industrial. Entretanto, uma pergunta permanece sem resposta satisfatória: de que maneira essa riqueza retorna para os territórios que historicamente concentram os trabalhadores responsáveis por sustentar parte significativa dessa atividade econômica?

Quem movimenta essa riqueza?

Quem ocupa os postos mais pesados da logística?

Quem trabalha na manutenção, no transporte, na armazenagem e nos serviços terceirizados que mantêm a atividade portuária funcionando diariamente?

Quem realiza os trabalhos menos valorizados, mais desgastantes e frequentemente mais precarizados?

E onde vivem esses trabalhadores?

Quando observamos os morros, a Zona Noroeste, os conjuntos habitacionais mais precarizados e as palafitas erguidas sobre o mangue, encontramos uma realidade que desafia a narrativa da prosperidade homogênea. A riqueza existe. O desenvolvimento existe. O investimento existe. Mas seus efeitos não alcançam todos os territórios da mesma forma.

Milton Santos afirmava que o espaço urbano é produzido socialmente. Isso significa que a distribuição de equipamentos públicos, infraestrutura, mobilidade, educação e oportunidades não ocorre por acaso. Ela resulta de escolhas históricas e políticas. Algumas áreas recebem investimentos contínuos. Outras convivem continuamente com a falta.

É justamente nesses territórios que a vulnerabilidade tende a se reproduzir entre gerações.

A criança que hoje vende balas em um semáforo muitas vezes é filha de trabalhadores inseridos em relações precárias de trabalho, submetidos à informalidade, à terceirização ou aos baixos salários. Muitos desses trabalhadores exercem funções essenciais para o funcionamento da cidade e, ainda assim, permanecem afastados das oportunidades que poderiam romper esse ciclo de vulnerabilidade. Essa realidade também possui uma dimensão histórica.

Florestan Fernandes demonstrou que a abolição da escravidão não foi acompanhada por um projeto efetivo de integração econômica e social da população negra. O acesso à terra, à educação, à moradia e ao trabalho qualificado permaneceu profundamente desigual. As consequências desse processo não desapareceram com o tempo. Elas atravessaram gerações e continuam presentes na organização dos territórios urbanos brasileiros.

A história econômica de Santos foi construída pelo trabalho de populações que raramente participaram de forma igualitária da riqueza produzida pela cidade. Primeiro sob a escravidão. Depois sob formas diversas de exclusão social, racial e territorial. As estruturas mudaram ao longo do tempo, mas a pergunta permanece: quem produz a riqueza e quem efetivamente se beneficia dela?

Por isso, quando observamos quem ocupa os espaços mais vulneráveis das cidades, quem depende exclusivamente dos serviços públicos e quem enfrenta maiores obstáculos à mobilidade social, percebemos que a desigualdade continua sendo atravessada por classe, território e raça.

E essa história ajuda a explicar por que determinadas populações permanecem mais expostas à precariedade habitacional, à insegurança alimentar, à evasão escolar e, consequentemente, ao trabalho infantil. É nesse ponto que surge a pergunta central.

Existem escolas de período integral suficientes para atender essas crianças?

Existem cursos gratuitos de idiomas, informática e qualificação profissional distribuídos pelos territórios mais vulneráveis?

Existem programas permanentes de esporte, cultura e reforço escolar capazes de ocupar o tempo livre dessas crianças e ampliar seus horizontes de futuro?

Existem políticas de formação profissional voltadas aos pais e mães que dependem de empregos cada vez mais precarizados?

Existe um projeto de cidade capaz de transformar desenvolvimento econômico em mobilidade social?

Porque retirar uma criança da rua é uma medida necessária.

 

Mas impedir que outra ocupe o mesmo lugar amanhã exige muito mais do que fiscalização.

Exige enfrentar as estruturas que tornam o trabalho infantil possível.

Se Santos produz tanta riqueza, por que ainda existem famílias cuja sobrevivência depende do trabalho infantil?

Talvez seja essa a pergunta que a cidade precise responder.

Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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