Santos Vermelha: a retomada da Cidade de Luta, Memória e Resistência

Por Cidinha Santos
27.10.2026
Foto: Juicy Santos
Historicamente marcada pela altivez de trabalhadores e trabalhadoras, pela tradição libertária e pelo pioneirismo nas lutas sociais, a cidade de Santos reafirma sua vocação histórica de resistência. As urnas do segundo turno das eleições de 2026 registraram um avanço expressivo da votação no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em um movimento de mobilização popular e consciência social, milhares de santistas manifestaram a escolha por um projeto focado na justiça social, na inclusão e no fortalecimento das políticas públicas.
O avanço progressista no município evoca a memória política de Santos e resgata um orgulho construído ao longo de séculos. A marca de "cidade vermelha" e de vanguarda não nasceu por acaso: foi forjada na resistência ancestral dos povos negros e originários, na bravura de mulheres rebeldes, no suor do cais do porto, na coragem do movimento operário e nas gestões populares que revolucionaram a administração pública brasileira nas décadas de 1980 e 1990.
1. Raízes ancestrais: a matriz negra, quilombola e indígena
Antes mesmo do surgimento do operariado moderno, Santos já era um território marcado pela busca incessante da liberdade. A cidade abrigou o histórico Quilombo do Jabaquara, liderado por Quintino de Lacerda, ex-escravizado, que se tornou uma das maiores autoridades abolicionistas e políticas da região no final do século XIX. O Jabaquara não foi apenas um refúgio para milhares de negros e negras; transformou-se em um polo de acolhimento e resistência comunitária. Essa herança preta estruturou a cultura viva de Santos, perpetuada no samba, nas religiões de matriz africana e na força do movimento negro local.
Nas franjas da Serra do Mar e nos ecossistemas de mangue da Baixada, a presença dos povos originários, em especial do povo Guarani Mbya, representa a guardiã da Mata Atlântica e do direito originário à terra. A luta indígena na região traz a exigência do combate à especulação imobiliária e da preservação ambiental, lembrando que a justiça social é indissociável da justiça territorial e do respeito às cosmovisões ancestrais.
2. A força operária do cais e o pioneirismo de Pagu
A identidade política da cidade entrelaça-se visceralmente com o movimento operário e portuário. Maior porto da América Latina, Santos foi a porta de entrada para os ideais anarquistas, socialistas e comunistas trazidos pelos trabalhadores. Estivadores, ensacadores, conferentes, bancários e ferroviários construíram das redes de solidariedade de classe das mais potentes do país. As greves históricas do cais santista pautavam os rumos da política nacional, exigindo direitos trabalhistas e democracia — o que fez da cidade alvo prioritário de repressão durante a ditadura militar de 1964.
A essa tradição operária soma-se o legado de Patrícia Galvão, a Pagu. Escritora, jornalista e militante comunista, Pagu adotou Santos como seu território de vida e combate nas décadas de 1950 e 1960. Ao desafiar o conservadorismo e liderar ações culturais de vanguarda e de organização dos trabalhadores, Pagu tornou-se o símbolo do protagonismo das mulheres santistas — inspiração para gerações de lideranças comunitárias, feministas classistas antirracistas, promotoras legais populares e ativistas que lideram lutas sociais na cidade até hoje.
3. O legado transformador das gestões Telma de Souza e David Capistrano Filho
Para compreender a força do projeto popular em Santos, é indispensável resgatar os governos de Telma de Souza e David Capistrano Filho. Suas administrações romperam com a lógica privatista e higienista, mostrando que a gestão pública pode transformar a vida dos que mais precisam com políticas que ganharam projeção global:
• As policlínicas e a saúde universal: A descentralização da saúde começou com a implantação das Policlínicas nos bairros periféricos e morros. Garantindo atendimento preventivo e comunitário, o modelo santista serviu de referência para a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil.
• A luta contra a AIDS e o pioneirismo mundial: Enfrentando a epidemia de HIV/AIDS com ciência e acolhimento, Santos criou os primeiros programas de distribuição de seringas descartáveis e tratamento gratuito. A abordagem pioneira fez com que a política de combate à AIDS da cidade fosse reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como padrão de referência internacional.
• A reforma psiquiátrica e o fim dos "hospitais do horror": A intervenção na Casa de Saúde Anchieta em 1989 e a criação dos Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS) lideraram a Reforma Psiquiátrica no país. O modelo de substituição dos manicômios por cuidados territoriais humanizados foi chancelado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e adotado internacionalmente.
• Habitação e contenção de encostas: O programa de intervenção estrutural nos morros aliou engenharia pública e participação popular, estancando o histórico de deslizamentos e garantindo o direito à moradia digna.
4. Reencontro com a História e Futuro
A ampliação dos votos em Lula reflete a vitalidade da memória coletiva que recusa o desmonte dos direitos sociais e das redes públicas. Santos demonstra que a sua essência permanece fincada na solidariedade, no antirracismo, na igualdade de gênero e no fortalecimento da classe trabalhadora.
Ao reatar com suas raízes — do Quilombo do Jabaquara às lutas do cais, da transgressão de Pagu às conquistas de Telma e Capistrano —, a cidade reafirma seu papel na história do Brasil como um farol permanentemente aceso. É esse encontro entre a memória ancestral e a ação presente que mantém viva a chama da solidariedade e da esperança no litoral paulista.

Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

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