Se eu quiser falar com Deus – A oração ecumênica de Gilberto Gil

Se eu quiser falar com Deus – A oração ecumênica de Gilberto Gil

Por Roberto Canuto

27.06.2026

Foto: Facebook

Considero Gilberto Gil, dos astros da MPB, meu maior mestre e explico porque: Gil é o único que é excelente em tudo que os outros mestres fazem, ou seja, como compositor, cantor, instrumentista, além de uma pessoa maravilhosa, um mestre agregador de artistas, ecologista, humanista, socialista, etc, etc, com destaque para seu ecumenismo latente, unindo pessoas de todas as religiões.

E é nesse tema que quero focar essa primeira análise de músicas desse gênio e campeão de popularidade, que, como bom baiano, não precisa fazer força para ser querido e influenciar milhões de pessoas (inclusive músicos) no Brasil e no mundo.

Na canção "Se eu quiser falar com Deus" de 1981, o autor mostra sua visão de uma oração, provocando o ouvinte, pedindo que ele reflita sobre sua espiritualidade.

MAS O QUE A LETRA DA MÚSICA NOS DIZ?

"Se eu quiser falar com Deus": essa letra parece uma aula. E é! Deus não tem som, nem imagem, não é físico, nem tem formato definido (apesar do dogma sobre nossa semelhança), não é meu ou seu. Assim, sejamos desprendidos e não donos da verdade!

"Tenho que ficar a sós": não adianta me esconder num grupo religioso ou comunidade de irmãos. Isso é importantíssimo, mas a oração pede mais. Deus certamente não é um objeto, não é só meu ou do meu grupo.

"Tenho que apagar a luz": a concentração é importante, até para termos um pertencimento com a espiritualidade.

"Tenho que calar a voz": preciso, pelo menos por momentos contemplar ou mergulhar no silêncio, esquecendo um pouco as minhas emoções e opiniões.

"Tenho que encontrar a paz": a paz é o trilho do amor! Sem ela não se caminha na espiritualidade. Deus pode ser uma defesa, mas nunca uma arma.

"Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios": para meditar preciso quase parar o que estou fazendo, inclusive o trabalho (representado aqui pela gravata e o sapato) para conversar com meu Deus interno, minha energia vital. É importante desfazer os nós dos desejos também, ouvindo o silêncio, além dos receios pois vou buscar a esperança, a fé.

"Tenho que esquecer a data, tenho que perder a conta": a concentração pede que desliguemo-nos de calendário, rotina, dívidas e vida material, como quem salta no ar.

"Tenho que ter mãos vazias": falar de humildade é fácil, mas será que eu vivo isso?

"Ter a alma e corpo nus": não devo entender essa "nudez" pejorativamente. Acho que aqui o autor cita que devo me desarmar e, esquecendo desse corpo que um dia deixarei, me sentir como um espírito, minha verdadeira roupa. Preciso esquecer minhas posses também, desejando não ser diferente ou melhor que ninguém.

"Se eu quiser falar com Deus, tenho que aceitar a dor": não é fácil, mas preciso entender que a dor é inevitável e que ela traz experiência e resiliência.

"Tenho que comer o pão que o diabo amassou": pedindo a humildade, Gil aqui tem um momento de genialidade ao falar que, apesar do pão ser um símbolo do corpo de Cristo, comer o pão que o diabo amassou, ou seja "sofrer", me faz forte e corajoso.

"Tenho que virar um cão, tenho que lamber o chão dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho": noutra grande sacada, o autor usa a humildade e a fidelidade de um cão, lembrando que preciso esquecer o poder e o material para meditar e na própria vida desejar o "ser" e não o "ter".

"Tenho que me ver tristonho, tenho que me achar medonho": muito mais uma rima, a palavra "tristonho" representa aqui o arrependimento, olhar para trás também pra fazer melhor depois. Do mesmo modo, o vocábulo "medonho" quer me lembrar que faço muita coisa feia, errando constantemente.

"E apesar do mal tamanho, alegrar meu coração": é cair e levantar, é me sentir bem e alegre ao enfrentar as adversidades de peito aberto, vencendo o medo com a experiência, como dissemos antes.

"Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar. Tenho que subir aos céus, sem cordas pra segurar": não posso fazer só o que o sistema manda. Preciso criar o "novo", buscar novas alternativas e, sem medo, mergulhar de cabeça com esperança. Subir aos céus também significa buscar o lado espiritual, me aproximando do que chamos "Deus".

"Tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido pela estrada que, ao findar, vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar!" Oração também é desprendimento, me deixando levar ao infinito, numa estrada sem fim mesmo. A apoteose da letra se dá, brincando com o ouvinte no uso da palavra "nada".

Entramos na estrofe achando que o autor é ateu e depois vemos que não. Gil lembra que ninguém viu o que vem depois da morte. O importante é viver a vida com uma espiritualidade transformadora e não com um paraíso como foco, mas buscando a bondade, a empatia, a paz, o amor.

Belas horas aos que buscam a Deus como a energia do bem, querendo distribuí-la ao mundo e a todos. Aos que não... também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

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