Se o mérito bastasse, a torcida seria delas

Se o mérito bastasse, a torcida seria delas

Por Paula Ravanelli

16.07.2026

Foto: Agência Brasil - EBC

A eliminação da seleção brasileira masculina na Copa do Mundo ocupou, como sempre, horas de programas esportivos, debates, memes e discussões nas redes sociais. Faz parte. O futebol continua sendo uma das grandes paixões nacionais.

Mas confesso que o que mais me chamou a atenção não foi a derrota em si — sinceramente, já esperada depois de mais uma campanha decepcionante da seleção masculina. O que me surpreendeu foi perceber que, apesar disso, a expectativa continua voltada quase exclusivamente para ela. Depois do jogo, em meio a tantos comentários nas redes sociais, apenas um colega mencionou a seleção feminina. Ou seja, as mulheres seguem disputando não apenas partidas, mas também a atenção e o reconhecimento do próprio país.

Foi justamente lendo uma recente coluna da jornalista Alicia Klein que essa reflexão começou a tomar forma. Ao discutir a cobertura da Copa, ela mostra que as desigualdades do futebol não estão apenas dentro das quatro linhas, mas também em quem ganha visibilidade, autoridade e reconhecimento. A mesma lógica ajuda a explicar por que ainda olhamos para o futebol feminino como se ele ocupasse um lugar secundário.

E isso não acontece por falta de mérito. Se dependesse apenas do futebol jogado, da dedicação das atletas ou da capacidade de representar o Brasil, elas já ocupariam um lugar muito maior no imaginário da torcida. Não ocupam porque o problema nunca foi apenas esportivo. É cultural.

Durante muito tempo, as mulheres brasileiras sequer puderam jogar futebol. Muita gente desconhece esse capítulo da nossa história. Em 1941, durante o Estado Novo, o Decreto-Lei nº 3.199, editado por Getúlio Vargas, abriu caminho para proibir mulheres de praticarem modalidades consideradas incompatíveis com sua "natureza". Em 1965, já na Ditadura Militar, essa discriminação tornou-se explícita: o Conselho Nacional de Desportos incluiu o futebol entre os esportes oficialmente vedados às mulheres. A proibição só foi revogada em 1979, e a modalidade só passou a ser regulamentada em 1983, já no contexto da abertura democrática. 

Vale a pena lembrar disso sempre que alguém comparar, como se fossem equivalentes, a tradição do futebol masculino e a do feminino. Enquanto eles disputavam Copas do Mundo, construíam ídolos, movimentavam milhões e alimentavam um mercado cada vez mais poderoso, elas eram impedidas por lei de entrar em campo.

Mesmo assim, construíram uma seleção respeitada internacionalmente. Revelaram Marta, seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo. Disputaram finais, conquistaram medalhas olímpicas e colocaram o Brasil entre as principais forças do futebol feminino, quase sempre com muito menos investimento e muito mais obstáculos.

Os valores divulgados pela FIFA também revelam essa desigualdade. Na Copa do Mundo masculina de 2022, a Argentina recebeu US$ 42 milhões pelo título. Já na Copa do Mundo Feminina de 2023, a seleção campeã disputou uma premiação máxima de US$ 4,29 milhões. Quase dez vezes menos. Alguém dirá que o mercado explica essa diferença, mas mercados não surgem do nada, eles são construídos, recebem investimento, publicidade, espaço na televisão, incentivo, formação de atletas e cobertura da imprensa. O futebol masculino tornou-se um negócio bilionário porque, durante mais de um século, foi tratado como prioridade. O feminino, durante boa parte desse tempo, lutava simplesmente pelo direito de existir.

Dentro de campo, as jogadoras ainda precisam provar, a cada campeonato, que merecem reconhecimento. Aos homens, muitas vezes, basta vestir a camisa da seleção.  Vamos comparar as trajetórias de Neymar e Marta, independentemente da preferência pessoal de cada torcedor, é difícil sustentar que ela tenha menos talento, menos dedicação ou menos resultados. Ainda assim, a diferença de reconhecimento público e de remuneração entre ambos permanece abissal.

Em tempos em que tanto se fala em meritocracia, o futebol talvez seja um dos exemplos mais didáticos de que mérito, sem igualdade de oportunidades, nunca foi suficiente. Como demonstra Djamila Ribeiro em sua reflexão sobre os privilégios e as desigualdades estruturais, tendemos a naturalizar vantagens históricas e a confundi-las com mérito individual. Talvez seja exatamente isso que aconteça no futebol brasileiro. Naturalizamos quem recebe mais investimento, quem ocupa as manchetes, quem fecha contratos milionários e quem representa, supostamente, o "verdadeiro" futebol brasileiro. 

Por isso, torcer pela seleção feminina também tem um significado político. Não porque elas tenham a obrigação de compensar os fracassos dos homens, nem porque precisem ser transformadas em heroínas, mas porque reconhecer seu talento é também reconhecer uma injustiça histórica: não existe meritocracia em uma corrida em que um competidor largou há mais de cem anos e o outro só recebeu autorização para entrar na pista há pouco mais de quarenta.

Talvez esteja na hora de a torcida brasileira olhar para esse jogo com outros olhos. Porque, se o mérito realmente orientasse nossa paixão pelo futebol, faz tempo que a seleção feminina seria tratada como protagonista.

Paula Ravanelli é advogada e procuradora do Município de Cubatão, feminista e ativista dos direitos humanos. Atuou como Assessora Especial da Presidência da República nos governos Lula e Dilma e integra o Conselho Municipal da Condição Feminina de Cubatão.

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