Secretária de Comunicação de Santos será convidada pela Câmara a explicar verba de publicidade a páginas de Instagram

Requerimento do líder da Oposição, Rui De Rosis Jr. (PL), questiona pagamentos por postagens com críticas a adversários e elogios a aliados da Administração Municipal

Secretária de Comunicação de Santos será convidada pela Câmara a explicar verba de publicidade a páginas de Instagram

Sandro Thadeu

11.09.2026

Imagens: Divulgação/Câmara de Santos e Reprodução/Facebook

A secretária de Comunicação e Economia Criativa de Santos, Selley Storino, será convidada a comparecer à Câmara para prestar esclarecimentos aos vereadores sobre a gestão do contrato de publicidade da Prefeitura, especialmente em relação aos repasses financeiros destinados a páginas e perfis nas redes sociais.

O requerimento foi apresentado na sessão de ontem (10) do Legislativo pelo líder da Oposição, Rui De Rosis Jr. (PL) e deverá ser votado na próxima terça-feira (15).

O pedido tem como base uma análise feita pelo parlamentar em 19 processos administrativos referentes a pagamentos realizados entre dezembro de 2024 e outubro de 2025. Segundo o parlamentar, foram identificadas 32 notas fiscais que totalizam R$ 133 mil. Desse montante, R$ 106,4 mil foram destinados a cinco microempreendedores individuais (MEIs) responsáveis por perfis nas redes sociais.

Ainda de acordo com o vereador, quatro desses MEIs têm sede em São Vicente e mantêm perfis com foco editorial voltado ao município vizinho.

O parlamentar questiona, principalmente, o conteúdo das publicações utilizadas como comprovação da veiculação dos anúncios. Na avaliação dele, alguns dos materiais extrapolariam o caráter institucional previsto para a publicidade oficial, que deve ter finalidade educativa, informativa ou de orientação social, conforme estabelece a Constituição Federal.

Entre os exemplos listados nos processos estão pesquisas de popularidade do prefeito Rogério Santos (Republicanos), postagens de enaltecimento ao deputado federal Paulo Alexandre Barbosa (PSD) e conteúdos de crítica a opositores políticos, incluindo o vereador Allison Sales (PL).

Além disso, De Rosis Jr. questiona o modelo de remuneração adotado, baseado em valores mensais fixos independentemente do número de inserções.

O vereador também aponta, segundo sua análise, a ausência de plano de mídia, de pesquisas de preço, de justificativa técnica para a seleção dos perfis e de identificação visual clara informando ao público que os conteúdos se tratavam de publicidade paga pelo Município.

"A investigação precisa responder uma pergunta muito simples: quem decidiu que o dinheiro do contribuinte de Santos poderia pagar páginas para promover políticos e atacar seus adversários?", questionou.

Rui De Rosis Jr., líder da Oposição

Denúncia ao Ministério Público

Além da iniciativa na Câmara, o líder da Oposição encaminhou uma representação ao Ministério Público de São Paulo (MPSP), na última sexta-feira, com informações sobre esses processos administrativos que comprovariam o uso de recursos públicos para atacar adversários da gestão municipal e enaltecer aliados políticos nas redes sociais.

Segundo o vereador, a denúncia já foi aceita pelo promotor de Justiça Rogério da Luz e anexada a um procedimento anterior que investiga o possível monitoramento de redes sociais de opositores.

Em abril deste ano, Os Inconfidentes publicaram uma reportagem que trazia a informação de três propostas comerciais oferecendo, entre outros serviços, monitoramento de opositores, análise de sentimentos e estratégias de elevação da figura pública do prefeito.

Na ocasião, a Administração Municipal negou as acusações e informou que o monitoramento de redes sociais de agentes políticos constava de uma proposta comercial, mas não foi contratado e não integra nenhum contrato da Secretaria de Comunicação e Economia Criativa.

Cobrança por afastamento

Durante a sessão de ontem, os vereadores aprovaram, em regime de urgência, um requerimento de Allison Sales com diversos questionamentos à Prefeitura sobre o contrato de publicidade. Entre os pontos levantados, está a possibilidade de ter havido uma ordem expressa do chefe do Executivo para financiar publicações com ataques a adversários políticos.

"Foi um ataque não a mim, mas a todos os vereadores. Porque hoje sou eu, amanhã, se for algum de vocês, eu viria aqui discursar e defender como faço diariamente nas ruas", frisou ele, que defendeu o afastamento de Selley do cargo. Esse pedido também foi endossado pelos parlamentares Marcos Caseiro e Chico Nogueira (ambos do PT).

Caseiro reforçou a gravidade das acusações. "Isso não é uma questão de a gente ouvir a secretária só, é caso de polícia. É inacreditável utilizar dinheiro público para desqualificar pessoas que têm mandato popular", frisou.

Débora Camilo (PSOL), por sua vez, destacou que os questionamentos estão baseados em documentos oficiais. "Tá tudo documentado. A única defesa que a secretária pode fazer é dizer quem mandou ela fazer isso. Se não teve mandante, ela tem que responder", afirmou.

Até mesmo integrantes da base aliada manifestaram contrariedade diante dos documentos apresentados. Benedito Furtado (PSB) pontuou que "contra fatos não há argumentos" e criticou o uso de recursos públicos para páginas de redes sociais. "O problema é usar dinheiro público no momento em que falta verba para a saúde e para a educação", enfatizou.

Selley Storino, secretária de Comunicação e Economia Criativa de Santos

Ampla defesa

Apesar das críticas, Antônio Carlos Banha Joaquim (PSD) ponderou que é preciso garantir a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa.

Por esse motivo, argumentou que é preciso ouvir os veículos de comunicação envolvidos e a Prefeitura antes de "queimar a largada" ou fazer acusações sem o devido respaldo.

O líder do Governo, Cacá Teixeira (PSDB), seguiu a mesma linha ao ressaltar a necessidade de respeitar os princípios constitucionais do contraditório. Também pontuou que não há qualquer comprovação de que o prefeito tenha dado ordem expressa para atacar adversários nas redes sociais.

Reunião com o Executivo

O presidente da Câmara, Adilson Junior (PP), explicou que já conversou com o chefe do Executivo e com Selley sobre o assunto. Nesses diálogos, foi enfatizado que não serão admitidas agressões contra membros do Legislativo. A Mesa Diretora terá uma reunião hoje com Rogério Santos para tratar deste e de outros assuntos.

O parlamentar reconheceu que é difícil refutar as acusações, uma vez que os documentos de prestação de contas do contrato de publicidade oficial incluem postagens com ataques a um dos vereadores.

Apesar do tom crítico, Adilson ponderou que a verba de publicidade não deve ser "demonizada" em sua totalidade. Ele destacou que a comunicação institucional exerce papel de utilidade pública e é importante para divulgar campanhas de interesse da população, como as de vacinação.

O que diz a Prefeitura de Santos

Procurada para esclarecer os questionamentos, a Secretaria de Comunicação e Economia Criativa informou que não houve desvio de finalidade nos contratos de publicidade.

Segundo a pasta, todas as publicações patrocinadas possuem caráter estritamente institucional e têm como objetivo ampliar a divulgação de serviços, obras e outras informações de interesse público para os moradores de Santos.

A secretaria explicou, ainda, que os repasses dependem da prestação de contas dos veículos contratados, mediante a apresentação de relatórios detalhados das publicações realizadas.

“No caso mencionado, os administradores do perfil encaminharam um relatório completo de seus conteúdos, que constam tanto as postagens institucionais quanto aquelas que são de sua própria deliberação, sem qualquer relação destas com os pagamentos”, justificou.

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