Segue o seco – Marisa Monte canta a saga nordestina

Por Roberto Canuto
11.07.2026
Imagem Instagram
Estive pela primeira vez num emocionante show de Marisa há algumas semanas e, encantado com a teatralidade na interpretação, que já conhecia, mas também com a doçura dela com o público, que mostra a evolução da cantora, que tinha uma certa dificuldade com a própria timidez, resolvi voltar a lembrar de suas canções.
A música "Segue o seco" de 1994, esteve em paradas internacionais com seu clipe belo e muito bem feito, rodando pelo mundo com o patrocínio da Sony Music.
Aliás o disco "Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão" é uma preciosidade que recomendo. É como se fosse um livro cheio de crônicas e poesias, com arranjos de Gilberto Gil e músicas de Nando Reis, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e outros.
Mas o motivo da minha escolha se deve à letra, que foca num problema que afeta o Nordeste Brasileiro há centenas de anos e, mesmo com as mudanças climáticas, não mudou.
A sêca naquela região assola famílias até hoje, aliada à má distribuição de renda, mesmo com algumas iniciativas de governos mais sensíveis às dificuldades do povo, como programas de criação de cisternas, energia elétrica para todos e transposição do São Francisco. Há muito que fazer ainda.
O autor Carlinhos Brown foi muito feliz na letra, que narra com uma poesia arrebatadora a saga de um povo que sofre com a falta d'água.
A impressão é de que "Segue o seco" continua a história de "Asa Branca", do mestre Luiz Gonzaga, só que com uma poesia recheada de trocadilhos.
Mas o que nos diz a letra?
Segue o Seco (Carlinhos Brown)
"A boiada seca na enxurrada seca, a trovoada seca na enxada seca": a introdução já vem como um "abre-alas" do tema, pois o gado não tem água pra beber, a própria chuva é de poeira e não de água, a trovoada engana e não traz chuva para a enxada que não consegue ser usada para plantar. Já dá pra visualizar uma imagem coberta de barro seco.
"Segue o seco sem sacar que o caminho é seco, sem sacar que o espinho é seco, sem sacar que o seco é o ser sol": entendo que quem segue aí é um personagem que vive na região, que está tão acostumado com as dificuldades do clima, que nem percebe que toda aquela secura do caminho e do espinho vem do sol. É como se ele não conhecesse outro mundo que não o da seca. Aqui a "sacada" do trocadilho com as consoantes já embelaza o texto.
"Sem sacar que algum espinho seco secará e a água que sacar será num tiro seco e secará o seu destino, secará": o espinho representa as suas dificuldades, mas ele também secará. A pouca água que existe também secará um dia. Se o seu destino secar, isso pode significar morte. Mas talvez a morte do espinho represente o fim da dor. A poesia aqui deixa a mensagem aberta a interpretações diferentes.
"Ô chuva vem me dizer se posso ir lá em cima pra derramar você": essa bela frase mostra a vontade desesperadora de encontrar a chuva.
"Ô chuva preste atenção, se o povo lá de cima vive na solidão": aqui o personagem fala com a chuva como se indagasse uma entidade, pedindo para ela para dar uma olhada em seus entes que já se foram. Afinal a chuva vem do céu.
"Se acabar não acostumando, se acabar parado calado, se acabar baixinho chorando, se acabar meio abandonado": apesar dessa bela sequência ser de frases soltas, dá pra perceber que o personagem tem medo de se acostumar com a tristeza.
"Pode ser lágrimas de São Pedro, ou talvez um grande amor chorando, pode ser o desabotoado céu, pode ser o côco derramando": e veja só, quando sua tristeza possivelmante o leva às lágrimas, nosso amigo lembra que as famosas lágrimas de São Pedro podem salvar sua terra e sua gente. E qualquer lágrima serve: a de amor num romance, o céu desabotoado que derramaria sua água ou até a água de côco, uma fruta sobrevivente que guarda água dentro de si.
"Ô chuva vem me dizer...": finalizando, o personagem acredita na chuva, como quem acredita em Deus, até porque seu filho falava da água como algo sagrado. Veja que a canção fala da seca mas também da água. Fala da dor, mas também da esperança.
Belas horas aos que se preocupam com o sofrimento das pessoas e de seu povo. Aos que não, também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte

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