Sei que a força está com elas
Por José Manoel Ferreira Gonçalves

Por José Manoel Ferreira Gonçalves
12.03.2026
O peso e a leveza
Maria Augusta. Doutora Mayana. Maria do Bairro. Nomes diferentes, mesma fibra. Uma segura a pena, outra segura a vida, a terceira segura o mundo. A força feminina não pede licença. Ocupa. Inventa. Cura. Nas periferias, são elas que costuram a madrugada para a escola não fechar. Nos laboratórios, são elas que enxergam o que ninguém enxergou. A Dra. Mayana Zatz descobriu na placenta humana uma proteína que faz paraplegicos voltarem a sonhar com o chão. A polilaminina regenera o que a violência destruiu. Este é o Brasil que avança escondido sob a poeira dos noticiários.
Entre o fogão e o Nobel
A mulher brasileira carrega dupla e tripla jornada sem estalar os dedos. Ela é 51% da população e 100% da resiliência. Enquanto isso, o país que ela sustenta a devolve com números brutais. Em 2024, os estupros cresceram 7,5%. Foram 82.841 casos registrados, média de 226 por dia. Em janeiro de 2025, o aumento foi de 10,9% comparado ao mesmo mês do ano anterior. A violência física explodiu 42,7%. A cada seis minutos, uma mulher é agredida dentro de casa. A cada dois dias e meio, uma é assassinada pelo simples fato de ser mulher. O feminicídio é a ponta do iceberg. Debaixo d'água, estão as violências invisíveis: a moral, a emocional, a patrimonial. Aquela que esvazia a conta e a alma sem deixar hematoma.
O homem que não se cala
Homens como eu precisam olhar para o próprio espelho e enxergar um cúmplice. Somos netos de mulheres que sobreviveram à ditadura e à miséria. Filhos de mães que trabalharam até os ossos para o filho ter estudo. Maridos de companheiras que desafiam o teto de vidro todo santo dia. Pais de filhas que merecem ruas onde a noite não seja ameaça. Avôs de netas que precisam herdar um país onde a polilaminina seja mais famosa que a violência doméstica.
Eu sei que a força está com elas. Mas a força delas não precisa carregar sozinha o peso da nossa omissão. O compromisso é de todos os dias: não aceitar piadinha, não calar diante da agressão, não naturalizar o machismo que mata mais que qualquer epidemia. O Brasil precisa deixar de ser o país onde a mulher tem medo. E isso começa no olhar de cada homem que se diz decente.
José Manoel Ferreira Gonçalves é jornalista, advogado e engenheiro

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