SINTO muito, só que não

SINTO muito, só que não

Por Odair Dias

29.10.2026

Foto: Tony Valentte

Em uma cidade não muito longe daqui — dessas acalentadas pela brisa marinha, mas sufocadas pelo mofo da hipocrisia das elites locais —, um sujeito alçado à condição de guardião dos Direitos Humanos resolveu tirar a máscara. Frente às câmeras, com o sorriso cínico de quem se sente confortavelmente protegido pela casa-grande, destilou seu veneno pedagógico: orientou o patronato local a não contratar, a demitir e a boicotar sumariamente qualquer trabalhador que ostente o “defeito” de pensar à esquerda.

A ironia é trágica, quase acidental de tão perversa. O funcionário encarregado de velar pela dignidade humana utilizou a vitrine pública para pregar a cassação do direito ao pão. É a perversão institucional em seu estado puro: o remédio transformado em peçonha, a burocracia estatal colocada a serviço da inanição do divergente.

Não se trata de um surto isolado ou de um deslize retórico de ocasião. O episódio é o sintoma escancarado de uma patologia social em metástase no Brasil contemporâneo.

Assistimos à consolidação de um movimento de extrema-direita de traços abertamente protofascistas, cuja pedagogia política se funda na naturalização da violência e no desprezo absoluto pelo pacto democrático. É o ódio gestado na mediocridade, que não odeia apenas quem pensa diferente; odeia, na verdade, quem pensa.

A história, rigorosa e implacável em seus alertas, já nos mostrou essa cena antes. Na Alemanha dos anos 1930, a ascensão do horror nazista não começou imediatamente nos campos de extermínio; começou na interdição do cotidiano, no ruidoso boicote aos comércios judaicos, na interdição do espaço público e no estrangulamento econômico do inimigo fabricado pelo regime. O método é idêntico: desumaniza-se primeiro a existência moral e civil do outro, para que o seu aniquilamento material pareça um ato de higiene social.

Essa gente que hoje veste o terno do empreendedorismo moral padece de uma cegueira analfabetizada: confunde a inviolável liberdade de expressão com o salvo-conduto para a prática do crime. Onde esses néscios enxergam "liberdade de opinião", o arcabouço jurídico civilizado enxerga uma coleção sistemática de ilícitos: 

•      Na Carta Magna de 1988: A afronta direta à dignidade da pessoa humana (Art. 1º, III), ao objetivo de erradicar a discriminação (Art. 3º, IV) e à garantia inegociável de que ninguém será privado de seus direitos por motivo de convicção política (Art. 5º, VIII).

•      Na ordem internacional: A violação flagrante da Convenção 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que vedam a segregação no trabalho fundamentada em opinião política.

•      No direito do trabalho: A prática explícita de assédio moral corporativo e a afronta à Lei nº 9.029/1995, que tipifica como ilícita a adoção de qualquer conduta discriminatória no acesso ou na manutenção da relação de trabalho.

•      Na ética das profissões do Direito: A flagrante afronta ao Estatuto da Advocacia e à sua deontologia (Lei nº 8.906/1994), que exige do profissional a defesa intransigente dos Direitos Humanos e da ordem constitucional, sob pena de incorrer em conduta incompatível com a dignidade da classe.

O limite da liberdade de expressão, convém desenhar para os analfabetos funcionais da cidadania, é o Código Penal e os Direitos Humanos. Transformar o balcão de empregos em tribunal ideológico e instrumentalizar a fome do trabalhador não é posição política; é arbítrio, é assédio, é crime.

O erro daqueles que comemoram vitórias eleitorais episódicas é supor que o fascismo se recolhe com o fechar das urnas. Ele continua à espreita, ramificado nas corporações, no patronato provinciano, nas repartições e nos gabinetes. A nossa luta não se encerra no sufrágio; exige uma vigilância militante e intransigente na defesa da garantia primeira de qualquer civilização: o direito a existir.

Ao demagogo de ocasião, ao patrão que se julga feitor e a esse ecossistema de ódio que esbanja risos cínicos enquanto tenta cortar a subsistência do povo, a história e a luta popular reservam uma única resposta: não haverá um milímetro de recuo frente à barbárie.

"SINTO muito"? Só que não.

Odair Dias Filho é professor Universitário, assistente social, pesquisador, escritor e poeta

 

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