Só 18 delegacias de Defesa da Mulher funcionam 24 horas em SP
Carlos Ratton

Carlos Ratton
17.03.2026
Fotos: Agência Brasil – EBC e Tony Valentte
Um verdadeiro contrassenso. O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) propaga prioridade nas questões relacionadas à Segurança Pública. No entanto, no mês da Mulher e no período em que São Paulo registra o maior número de feminicídios do Brasil (ver nesta reportagem), das 142 delegacias de Defesa da Mulher do Estado, apenas 18 funcionam 24 horas. Santos é a única da Baixada Santista.
A informação é do presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Santos e Região, Renato Martins, que alerta ainda que das nove cidades da região, somente a de Santos foi concebida com verbas do Estado. As demais, são os municípios que arcam com os aluguéis e manutenção dos imóveis em que elas foram implantadas.
“Houve redução de investimento nesses 38 meses do Governo Tarcísio de Freitas. E as DDMs não são exceção. Na Baixada, praticamente nenhuma tem efetivo capaz de mantê-las em funcionamento ininterrupto. Nunca teve. Tarcísio foi eleito prometendo mudar essa realidade e não cumpriu. Vai entregar o governo do jeito que encontrou, com um déficit de mais de 15 mil policiais”, dispara.

Renato Martins
Atendimento
Renato Martins lembra que nas DDMs o atendimento deveria ser multidisciplinar e não só restrito à equipe jurídica do direito, com delegados, escrivãs e investigadores de polícia para tratar da questão do crime, mas também para dar o suporte à mulher vítima de violência.
“Aí você agrega isso à situação do Instituto Médico Legal (IML). Temos somente um na Baixada Santista (Santos). Ele que dá suporte para fazer o exame de corpo de delito em toda a região. Uma vítima que vai à delegacia de Praia Grande à noite, por exemplo, só vai ser atendida no plantão. Não vai ser na Delegacia de Defesa da Mulher. Feito isso, ela vai ter que se dirigir a Santos para fazer o exame de corpo de delito para produzir a prova contra o autor. É quase que carregar uma pedra nas costas para tentar fazer justiça e condenar o criminoso. O Governo cria todos esses obstáculos. Então, não é por acaso que cresce o feminicídio, que aumenta a impunidade”, explica.
Martins lembra que São Paulo registra quatro mulheres assassinadas por dia. “Quantos por feminicídio estão sendo condenados por dia? deveria estar na mesma proporção para a gente pudesse combater a impunidade. A DDM de Santos só possui um funcionário para atender nos finais de semana. Ele é que dá todo suporte para aquele plantão funcionar”, completa.
Delegacia de Descaso
Martins detalha ainda mais. Segundo ele, à noite, quando a situação se agrava, uma ocorrência que deveria ser feita em 45 minutos, leva três horas. “Porque você precisa se deslocar para o IML de Santos. Depois volta e tem somente um funcionário pra atender pelo plantão comum, com todas as demandas. Em São Paulo, DDM deveria ser conhecida como Delegacia de Descaso com a Mulher”, completa Martins.
O sindicalista enfatiza que a situação piora porque as delegacias estão com defasagem de funcionários. “A equipe que está trabalhando faz o que é possível dentro dos recursos que tem. O governo Tarcísio se nega a estruturar as delegacias de polícia. Santos e Praia Grande possuem quase 500 mil habitantes cada e a Polícia não tem condições atender a população à noite”.
Recorde
Dados apontam que São Paulo registrou recordes históricos em 2025 e superou o aumento proporcional observado em outras partes do Brasil em relação à violência contra a mulher. Uma alta superior a 8% em relação a 2024, resultando em uma média de uma mulher assassinada a cada 33 horas.
Estudos apontam que o número de vítimas de feminicídio em SP aumentou 96% em quatro anos, evidenciando uma crise aguda no estado. A cidade de São Paulo também bateu recorde em 2025, com 60 mortes registradas, um aumento de mais de 22% em relação a 2024.
A escalada inclui casos de extrema crueldade, com 70% das mulheres mortas dentro de casa e um aumento acentuado de crimes cometidos por ex-companheiros.
O feminicídio no Brasil atingiu um novo recorde em 2025, com 1.568 mulheres mortas, representando uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior e consolidando o maior número da série histórica. Essa estatística indica que cerca de cinco mulheres foram assassinadas por dia por questões de gênero no ano passado.

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