Somos Todos Iguais Nessa Noite – Ivan Lins e Vitor Martins após AI-5

Por Roberto Canuto
17.08.2026
Imagem Wikipédia
Continuando a falar sobre os "anos de chumbo", de 1964 a 1985, chegamos a mais um grande ídolo meu e dos amantes da MPB; o cantor, compositor e pianista Ivan Lins, que tinha como parceiro o não menos genial Vitor Martins, um dos melhores letristas do Brasil e, por que não, do mundo, dono de uma técnica apurada em rimar e encaixar versos nas belas melodias de Ivan, parecendo que os dois eram um só criador. Muita gente boa gravou canções da dupla, como Elis Regina, Simone, Leila Pinheiro e outras grandes vozes do Brasil e do exterior.
"Somos todos iguais nessa noite" foi gravada em 1977 e dá nome ao sexto álbum de estúdio do artista, e tendo uma capa enigmática, foi um clássico no enfrentamento ao regime militar. E pasme, essa música não foi proibida como outras de Ivan, pois sua metáfora foi tão bem traçada que as pessoas que faziam a censura acharam que ela falava poeticamente do mundo do circo.
Ivan conseguiu essa proeza outras vezes, pois, assim como outros líderes fascistas de hoje (de farda ou não), os militares e seus assessores da época não tinham uma inteligência muito apurada, digamos assim.
Mas falando mais sério, o sofrimento do povo mais humilde e dos artistas e intelectuais da época era muito grande e é sobre isso que a maravilhosa letra de Vitor e a espetacular melodia de Ivan queriam expressar nos difíceis anos 70.
MAS O QUE NOS DIZ A LETRA?
"Somos todos iguais nessa noite, na frieza de um riso pintado, na certeza de um sonho acabado, é o circo de novo" - Na noite da repressão e do medo, após o AI-5, quem queria um mundo mais justo e humano estava de mãos atadas, como as pessoas que não estavam nem aí. Poucos conseguiram lutar por uma mudança.
Um riso pintado não é um riso real e, assim a alegria era falsa, como a de um palhaço que encena a alegria, mas sofre. A certeza de um sonho acabado era como uma nuvem escura de uma tempestade, prevendo uma falta de liberdade que duraria muitos anos. É o circo de novo, pois como um circo que volta a uma cidade, a repressão que já havia acontecido no país outras vezes, tinha voltado. Só que nessa metáfora esse circo do progresso era falso, a violência e a exploração do Brasil continuariam.
"Nós vivemos debaixo do pano, entre espadas e rodas de fogo, entre luzes e a dança das cores. Onde estão os atores?" - Vivíamos debaixo do pano do circo, presos na simulação de uma festa, só que cercados por espadas, que num circo comum seriam usadas numa apresentação de um ilusionista, mas aqui representam as forças armadas oprimindo a liberdade de seu próprio povo. As rodas de fogo, que num circo seriam formadas para acrobacias, aqui representam o espaço fechado pelo perigo para quem tentasse fugir do país ou enfrentar as novas leis. Os atores que sumiram podem lembrar os artistas que foram exilados ou os trabalhadores e estudantes perseguidos pela Ditadura.
"Pede à banda pra tocar o dobrado. Olha nós outra vez no picadeiro! Pede à banda pra tocar o dobrado. Vamos entrar (dançar) mais uma vez!" - Nesse refrão se pede para tocar o "dobrado", ritmo próprio das bandas militares, pois claro, eles é que mandariam no "espetáculo" dali por diante, substituindo talvez a banda do próprio circo.
Nós outra vez no picadeiro, no caso, ironicamente para representar a alegria que não existia mais, talvez fazendo papéis de palhaços mesmo. Vamos entrar mais uma vez, numa sequência dolorida sem fim. O segundo refrão falava "vamos dançar mais uma vez", ou seja, nos dar mal.
"Somos todos iguais nessa noite, pelo ensaio diário de um drama, pelo medo da chuva e da lama, é o circo de novo" - Então, todos nós, brasileiros, iguais na tristeza, viveríamos dia-a-dia o ensaio de um drama, só que verdadeiro, com medo da chuva e da lama, que aqui representam o sofrimento, a derrota da fé, a ruína. Afinal o "circo" voltou.
"Nós vivemos debaixo do pano, pelo truque malfeito dos magos, pelo chicote dos domadores e o rufar dos tambores" - Debaixo de nossa nova lona, os mágicos que faziam truques magníficos e até engraçados, agora fariam o truque de nos capturar, nos torturar.
Esses domadores nos domariam como os animais do circo. O rufar dos tambores que antes nos preparavam para um número de um trapézio ou homem bala, agora precederia talvez o fuzilamento, senão de nossas vidas, talvez de nossa esperança.
MAS ESSA FASE PASSOU. PASSOU?
Fico feliz em mostrar o talento de nossos letristas e poetas que, durante a repressão militar, criaram tantas pérolas como essa canção. Eles ajudaram o movimento pela liberdade e construíram a democracia junto com o povo do Brasil. Mas, cuidado, o fascismo que aumenta no mundo, tenta acabar com nossa alegria. Lutemos juntos!
Belas horas aos que lutaram e lutam hoje pela própria liberdade e a de seu povo, como nossos grandes mestres da MPB. Aos que não, apesar da covardia ou ignorância, também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

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