Sororidade como tecnologia ancestral de sobrevivência nos movimentos sociais
As armadilhas das estruturas de poder do capitalismo em nos tornarmos competidoras entre nós

As armadilhas das estruturas de poder do capitalismo em nos tornarmos competidoras entre nós
Por Cidinha Santos
Para nós, mulheres negras que ocupamos as trincheiras dos movimentos sociais, a palavra sororidade muitas vezes chega desgastada, quase como um conceito esvaziado por campanhas publicitárias ou pelo feminismo liberal que ignora as nossas especificidades. Quando “despimos” esse termo das suas camadas superficiais, encontramos a tecnologia ancestral de sobrevivência que o capitalismo tenta sabotar a todo custo.
O sistema em que estamos inseridas é mestre em forjar a ilusão da escassez; ele nos sussurra constantemente que os espaços de poder são limitados e que só existe lugar para uma de nós no topo. Essa lógica perversa transforma companheiras de luta em rivais em potencial, fazendo com que passemos a vigiar o sucesso da outra como se ele fosse a causa do nosso próprio apagamento.
Essa estrutura de competição não é acidental, mas sim um projeto político muito bem desenhado para fragmentar a nossa força coletiva. Nos movimentos sociais, essa disputa muitas vezes se manifesta de forma camuflada, travestida de um rigor ético inquestionável ou da busca por pureza ideológica.
É aqui que a armadilha se fecha: somos tragadas pelo argumento de que precisamos ser guardiãs da conduta alheia, e acabamos exercendo a crueldade horizontal que desumaniza a mulher que está ao nosso lado. Muitas vezes, somos mais implacáveis com o erro de cada irmã de caminhada do que com as próprias instituições que nos oprimem.
Essa vigilância constante e a disposição para o "cancelamento" interno nada mais são do que ferramentas do patriarcado operando pelas nossas mãos, drenando a energia que deveria estar sendo usada para derrubar as estruturas do racismo e do capital.
Alimentamos esse ciclo quando aceitamos o papel da "mulher negra única" em espaços institucionais ou quando permitimos que o ego e a produtividade tóxica ditem o valor da mulher militante. A crueldade entre nós floresce no solo da exaustão, onde não há espaço para a vulnerabilidade ou para o descanso. Quando deixamos de ver a humanidade na outra, esquecemos que a nossa rede é histórica e que nenhum avanço que celebramos hoje — do direito à educação às conquistas em direitos reprodutivos — foi fruto de um esforço isolado.
As nossas ancestrais construíram irmandades, quilombos e redes de cuidado mútuo porque sabiam que a solidão é o terreno onde a opressão mais prospera. Elas entendiam que a sororidade, para mulheres negras, é o que Vilma Piedade chama de “dororidade”: a união pela dor comum, mas também pela cura compartilhada.
Manter e proteger essa rede de mulheres é, portanto, um ato de resistência radical contra a campanha sistemática de divisão que tenta enfraquecer a nossa luta. A sororidade política exige que tenhamos a coragem de interromper o ciclo da crueldade e de olhar para a nossa companheira com a generosidade de quem sabe que o destino de todas está entrelaçado ao da outra.
Precisamos ser capazes de discordar sem destruir, de criticar sem desmobilizar e de acolher sem julgar a exaustão alheia. No fim do dia, a união das mulheres é o maior pesadelo do capitalismo, pois a mulher que sustenta a outra torna-se parte de uma força que não pode ser comprada, silenciada ou vencida.
Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação dos movimentos sociais, promotora Legal Popular e cantante do Grupo Vozes.

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