“Sou em educador que escreve e um escritor que educa”

Carlos Ratton
26.09.2026
Fotos: Tony Valentte
A frase é do escritor, professor e ativista indígena Daniel Munduruku, que, ao completar 30 anos de escrita este ano, concedeu entrevista exclusiva aos Inconfidentes, durante o 4º Encontro Nacional do Fórum Brasil de Turismo Cultural, realizado em Santos (SP).
Com 70 livros, três deles detentores do prêmio Jabuti de Literatura (o mais tradicional e importante do Brasil) e outros premiados também no exterior, Daniel Munduruku vem trabalhando muito para promover a literatura indígena e a conscientização sobre a importância das culturas indígenas do Brasil.
Graduado em Filosofia, História e Psicologia, com mestrado em Antropologia Social doutorado em Educação e pós-doutorado em Linguística, foi fundador do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (INBRAPI) e um dos criadores do Encontro Nacional de Escritores e Artistas Indígenas que existe há quase duas décadas.
Hoje, é vereador e diretor-presidente do Instituto Uk'a - Casa dos Saberes Ancestrais na cidade de Lorena, ONG e selo editorial especializados na temática indígena, é também membro da Academia de Letras de Lorena (SP).

Daniel já recebeu a comenda da Ordem do Mérito Cultural por duas vezes, em 2013 na categoria da Grã Cruz do Ministério da Cultura, maior honraria oficial que um civil pode receber na área cultural. Este ano, tenta uma cadeira na Câmara dos Deputados. Confira a entrevista:
Os Inconfidentes – O que é ser um escritor indígena no Brasil?
Daniel Munduruku – Eu acho que ser escritor indígena é poder oferecer às pessoas um acesso a um conhecimento e a uma sabedoria que as pessoas foram privadas de receber. Através da literatura, a gente tem conseguido estabelecer uma ponte, um encontro com as pessoas. E o mais interessante disso é que essa literatura tem feito com que as pessoas possam perceber partes de uma história esquecida. Então, acho que, como autor indígena, eu me sinto muito pleno no sentido de poder estar oferecendo ao povo brasileiro, àqueles que leem, àqueles que têm acesso a essa literatura, a possibilidade deles se encontrarem também como parte dessa nossa identidade.
Os Inconfidentes - Como é que o mercado editorial encarou o segmento indígena?
Daniel Munduruku - Acho que houve uma evolução. Em um primeiro momento, o nosso primeiro trabalho foi tentar convencer o mercado editorial de que a gente tinha competência para lidar com a linguagem, com a linguagem escrita. Lembrando que, tradicionalmente, as pessoas consideram os indígenas como detentores apenas de uma oralidade, de uma tradição oral. E muitas dessas pessoas, incluindo críticos literários, diziam que os indígenas não sabiam escrever, não podiam escrever porque não tinham o poder da escrita. E a gente teve que convencer de que isso não era verdade, mostrar que a gente sim podia, a gente sabia. A gente já tinha o mais importante no ato de escrever, que é a história.
Os Inconfidentes – Histórias que vão passando de geração para geração?
Daniel Munduruku - A gente já trazia na memória da gente as histórias contadas pelos nossos antigos. O exercício da escrita é uma técnica, e técnica a gente aprende. Talvez, se você não tem uma vocação para a escrita, é outra coisa. Mas a técnica de escrever a gente aprende, que é diferente da técnica de contar a história. É uma outra vertente. E as histórias a gente já tem. Então a gente só precisava juntar a oralidade com a escrita e convencer o mercado de que ali tinha um potencial produto. Porque a gente tinha que pensar também como o mercado pensa. A literatura como produto, não apenas como vocação, como poesia.
Os Inconfidentes – Há um reconhecimento?
Daniel Munduruku - A gente teve também, nesses 30 anos, a graça, bem no sentido da palavra graça, de bênção, de ter um governo que começou a olhar para os povos indígenas de uma maneira diferenciada. É verdade que nós, indígenas, só fomos reconhecidos como brasileiros há 30 anos atrás. Há 36 anos atrás, na Constituição de 1988. De lá para cá, foi preciso construir políticas públicas que garantissem o direito dos indígenas serem brasileiros e serem indígenas ao mesmo tempo. E a literatura invadiu essa praia. A literatura foi chegando devagarinho, foi se apresentando. E o mercado, e, novamente, graças a esse governo, que em 2008 homologou a Lei nº 11.645, uma lei que garante a temática indígena no contexto de sala de aula, fez com que houvesse uma necessidade de ter material didático, material literário, para trabalhar a temática indígena na sala de aula. E aí houve um ‘boom’ dessa literatura.
Os Inconfidentes – É preciso que a rever o que é passado nas escolas em relação aos indígenas?
Daniel Munduruku - Eu acho que ainda está num processo. A literatura é uma linguagem mais longeva que existe entre as linguagens da arte. É claro que a arquitetura pode ser longeva, é claro que a arte plástica pode ser longeva. Os grandes quadros pintados atravessam séculos, atravessam milênios. Mas a literatura na linguagem da arte é a que mais influencia porque ela é, digamos, permanente, ela fica. Na medida em que ela vai se estabelecendo como uma linguagem a ser utilizada na escola, ela permanece. E aí passam gerações e gerações sendo educadas por aquele tipo de leitura. Então, nesse sentido, eu acho que a literatura está num processo, a escola está num processo, a educação está num processo de entender que as culturas indígenas estão aqui para ficar. Elas vão permanecer e a literatura pode ajudar e muito a fazer com que essa continuidade exista e aconteça. Uso a literatura para compartilhar saberes indígenas e reconstruir histórias esquecidas. Em 30 anos, conquistamos espaço no mercado e nas escolas, mas ainda é preciso reconhecer as culturas indígenas como vivas e permanentes.

Os Inconfidentes – Como atingir crianças e jovens? Criar novos leitores? As histórias indígenas são atrativas?
Daniel Munduruku – Sim. Há 30 anos, eu comecei a escrever especificamente para o público infantil, tem gente que acha que eu escrevo para criança porque eu não tenho competência para escrever para adulto, e as pessoas não se dão conta que a escrita para criança ela é muito mais delicada do que a escrita para o adulto, que tem já um repertório. Tem seus preconceitos e conceitos. A criança é pura, né? A criança, ela é mais aberta, mais aberta para a novidade, e como ela está na formação da sua consciência fantástica, consciência de fantasia, consciência de afeto, ela abraça muito mais essas histórias. Então, sabendo disso, sou professor de formação. Quis escrever para esse público infantil, que depois se tornou meu público juvenil também, porque essas crianças crescem e precisam ter material para continuar a leitura. Então eu acabei fazendo com que a literatura infantil passasse a tomar conta da minha história, da minha vocação, diria, e isso deu um resultado maravilhoso. Hoje, podemos dizer que temos uma literatura indígena no Brasil. É uma literatura sobretudo voltada para crianças e jovens, que é o nosso público preferencial para tentarmos combater de uma vez por todas o preconceito que ainda existe contra os povos indígenas.
Os Inconfidentes - Vamos dar um pouquinho de foco aqui. Hoje, você é um legislador, um vereador. Vai tentar para ser deputado federal. Qual vai ser o seu papel como deputado?
Daniel Munduruku - Eu tenho quatro eixos de atuação que fazem parte da minha vida. São eixos interdependentes. Para nós, indígenas, essa coisa de ficar focando numa coisa só e achar que aquilo é o que resolve o mundo não é para o nosso bico. Nosso pensamento é um pensamento circular e passa exatamente por todas as áreas de conhecimento. E é claro, eu tenho meus eixos de atuação, que tem a ver com cultura, tem a ver com educação, eu sou educador de formação, tem a ver com a questão ambiental e tem os povos indígenas, são esses quatro eixos que efetivamente me movimentam e por onde eu queria dominar mais o conhecimento, o conteúdo e tal, e é isso que eu quero levar para a Câmara Federal.
Os Inconfidentes – Quais as ferramentas?
Daniel Munduruku - Criação de políticas públicas que vão fortalecer esses quatro eixos, que vão dialogar entre si e vão criar a ideia nossa que a gente contribua para que o Brasil pense o Brasil, o Brasil goste do Brasil, o Brasil se comprometa com o Brasil. Sejamos menos brasileiros e mais Brasil. A gente tem que ser menos o peão que carrega o pau Brasil nas costas para entregar para os colonizadores e mais a própria árvore que tem a raiz fincada no chão e se fortalece, exatamente quando finca o pé no chão, ou seja, que a gente tenha orgulho de ser Brasil e não ficar querendo que as nossas riquezas alcancem outros lugares por aí que vão se enriquecer com isso tudo e nos deixar pobres.

FOTO DANIEL 2
Os Inconfidentes - O que é que precisa fazer para os indígenas participarem mais da decisão desse país?
Daniel Munduruku - Primeiro a gente tem que ter uma luta pelos direitos. Que eles se concretizem, porque os direitos a gente já tem mas, para se concretiza-los é mais difícil. Precisamos também formar a nossa juventude indígena com uma visão política um pouco mais universal, menos local no sentido de ser nas aldeias, de ser no território, porque o tema dos povos indígenas não é um tema local, ele é um tema nacional, é um tema internacional, ele é um tema universal, cósmico até, se a gente quiser. Só que a gente precisa criar um jeito de dialogar a nossa visão, a nossa cosmovisão indígena com a visão ocidental, que é uma visão de consumo. A nossa visão é mais integradora e a visão do ocidente é mais consumista. Precisa destruir para se sentir poderoso. O indígena precisa cuidar para ele se sentir mais poderoso. Então, são duas perspectivas, duas visões de mundo que não se abraçam, quando muito se encontram, mas nunca se abraçam. E é no abraço que mora a revolução, não é no encontro.
Os Inconfidentes – Gostaria que você falasse para os indígenas que estão em retomada?
Daniel Munduruku - Eu acho que tem duas perspectivas que a gente tem que olhar essa temática. Primeiro, tem muita gente que quer se sentir indígena por oportunismo. E o oportunismo é sempre muito perigoso, porque as pessoas acabam se apoderando de determinadas pautas e fazendo com que elas sejam favoráveis a si mesmas. Então, é uma visão egoísta, uma visão individualista, uma visão que não tem nada a ver com a cosmovisão indígena. E tem uma outra perspectiva que é exatamente das pessoas que se sentem parte de um povo, que sabem que fazem parte de uma tradição, mas que, por motivos históricos, motivos geográficos, motivos sociológicos, o seu povo acabou se dispersando e acabaram indo viver em outros contextos e, sobretudo, em contextos urbanos. Pessoas que buscam essa sua volta, esse seu retorno à ancestralidade, que chamam de retomada, são pessoas muito bem-vindas, são pessoas muito bem quistas por todos nós indígenas, porque somos de um contexto mais ancestral.
Os Inconfidentes – Esse reconhecimento faz parte de seu trabalho?
Daniel Munduruku - Na verdade, o trabalho que eu faço é sempre no sentido de mostrar para o brasileiro que ele é indígena. Não é o indígena que é brasileiro, é o brasileiro que é indígena. A gente tentar inverter essa posição. Podemos fazer a educação para o pertencimento, a educação das nossas crianças para ter orgulho de ser quem elas são, e elas são indígenas. É claro, tem a junção, tem a miscigenação, o encontro entre as culturas, tudo. Mas dentro delas, dentro das crianças, moram essas diferentes culturas. E essas culturas se sintetizam, digamos, no ser indígena. E quando as pessoas se sentem indígenas, elas se sentem partes. E quando elas se sentem partes, elas se comprometem. E quando elas se comprometem, aumenta a autoestima delas. Então, todo mundo tem que buscar um pouco essa sua ancestralidade. Ter orgulho dessa ancestralidade. E todo mundo tem que respeitar o outro do jeito que o outro é, com a ancestralidade que o outro tem. Não importa, inclusive, que ele seja europeu, é uma ancestralidade também. Mas que a gente consiga fazer disso não um ponto de separação, mas um ponto de abraço.

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