Suposto esquema de “Chequinho” volta a ser denunciado em Santos
Carlos Ratton

Carlos Ratton
09.02.2026
Foto: Facebook/PMS
O vereador Rui De Rosis Júnior (PL – foto acima) denunciou em suas redes sociais um suposto esquema institucionalizado há anos, na Secretaria de Cultura de Santos (Secult), para pagar mensalmente, via Recibo de Pagamento Autônomo (RPA), centenas de pessoas não-concursadas, que estaria dando um prejuízo aos cofres públicos de cerca de R$ 6 milhões por ano.
Nesta terça-feira (10), ele pretende solicitar a convocação do secretário Rafael Leal para ir à Câmara dar explicações e acredita que os pagamentos têm como objetivo manter apoiadores eleitorais. A ida de Leal depende de aprovação dos demais vereadores (as).
O parlamentar afirma que a operação do governo Rogério Santos (Republicanos) é a mesma denunciada há 10 anos (2016), durante o governo do então prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), hoje deputado federal, que ficou popularmente conhecida como “chequinho” e virou alvo do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) naquela ocasião. Ver detalhes nesta reportagem.
Vale lembrar que Rogério Santos foi secretário de Governo na Prefeitura de Santos durante a gestão do ex-prefeito Paulo Alexandre Barbosa, atuando no cargo por mais de sete anos antes de se eleger prefeito em 2020.

Governo Rogério Santos estaria agindo semelhante ao Governo Paulo Alexandre Barbosa
Em entrevista aos Inconfidentes logo após a publicação do vídeo em suas redes sociais,o vereador disse que fez um amplo levantamento via Portal da Transparência e acredita que os “chequinhos”, na verdade, nunca acabaram e que, somente nos últimos cinco anos, foram pagos mais de R$ 30 milhões – cerca de seis milhões ano – a apoiadores, disfarçados de prestadores de serviços.
“O volume é assustador e vem ocorrendo desde 2020, pelos menos, via CNPJ ou CPF. Quando você vai se aprofundando nas telas do portal, você consegue identificar os RPAs. Existem muitas pessoas recebendo ao longo de vários anos e ininterruptamente. Há uma manobra: a pessoa recebe por 11 meses em uma função, fica um mês sem receber e, depois, volta a receber em outra função por mais 11 meses”, detalha, alertando que não tem nada a ver com artistas que recebem por projetos culturais e fomentam a cultura no Município.
Segundo Rui De Rosis Júnior revela, os pagamentos variam e o foco inicial de sua fiscalização é, num primeiro momento, a Secult onde, segundo afirma, foram identificadas distorções na execução orçamentária. Ele não descarta a possibilidade de outras secretarias estarem operando da mesma forma, para garantir, segundo acredita, a perpetuação no poder do mesmo grupo político na Cidade.

“Comecei a perceber que o orçamento da cultura é sempre suplementado. Ano passado, foi executado quase 80 milhões. Cheguei a fazer quatro requerimentos pedindo explicações e até hoje não obtive respostas. O prefeito (Rogério Santos) foi prestar contas no final do ano, na Câmara, onde eu cobrei essa situação. Falei para ele que o secretário não estava respondendo os requerimentos e que eu estava apurando”, afirma.
Final do recesso
O parlamentar disse à Reportagem que aguardou o final do recesso e que o próximo passo, após a negativa do secretário em dar explicações, seria a convocação, como permite o regimento interno da Câmara. Ele está confiante que os demais vereadores, mesmo sendo de situação, não vão se opor à convocação de Leal.
“Eu espero que o secretário explique para os vereadores e para a população um gasto de mais de R$ 6 milhões anuais com RPAs, que pode ser considerado, no mínimo, como uma burla ao concurso público para contratar pessoas sem critério. Permite-se contratações de apoiadores de campanha, amigos e familiares. Tudo isso está sendo apurado”, adianta.

Vereador diz que Rafael Leal não responde requerimentos
Rui De Rosis alerta que possui nome e sobrenome de dezenas e que, após seu pronunciamento online, começaram a aparecer ainda mais denúncias de próprios funcionários e pessoas que conhecem os apoiadores.
“Muita gente começa a mandar e-mail, mensagens. Começa a chegar denúncias. Estou levantando tudo com cuidado e responsabilidade para não fazer falsas acusações. Mas o caso é bastante grave”, disse o parlamentar, não descartando recorrer novamente ao MP-SP após levantar todo o restante da documentação.
“Chequinho” anterior
Há dez anos, o caso dos ‘chequinhos’ foi denunciado por este repórter no jornal Diário do Litoral e envolvia líderes de bairro, assessores de vereadores, comerciantes, profissionais liberais, colaboradores de campanha, formadores de opinião e até dirigentes do Santos Futebol Clube. A Prefeitura sempre negou as possíveis irregularidades.
O recebimento acabou batizado de ‘chequinho’ em referência a uma antiga forma de pagamento de cachês de artistas em cheques. Há época, o esquema mantido até então nos corredores do Paço José Bonifácio se ratificou por intermédio de inúmeros personagens. Houve até um áudio em que um secretário expunha ao interlocutor o preço de uma espécie de ‘cala boca’ a um beneficiado.
O vereadores José Lascane (falecido), do próprio partido do então prefeito Paulo Alexandre Barbosa, o PSDB, o então vereador Evaldo Stanislau (Rede) e o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Santos (Sindserv), Flávio Saraiva, alardearam os prejuízos causados pelo suposto esquema. Uma enfermeira e outros que revelaram receber ‘chequinho’ por meses a fio.

O suposto esquema funcionava um pouco diferente e da seguinte forma: o colaborador entregava à Prefeitura o RG, CPF e número da conta corrente. A cada 30 dias, eram depositados valores em dinheiro que variavam de mil a dois mil. Não havia contrato formal. Muitos trabalhavam regularmente na Prefeitura, submetendo-se à hierarquia do funcionalismo público.
Procurada pela Reportagem na ocasião, a Administração Paulo Alexandre Barbosa, em nota, refutou a denúncia e a reafirmou que os pagamentos de profissionais autônomos eram feitos nos termos da lei.
O MP-SP chegou a abrir inquérito civil para apurar eventual contratação irregular de pessoas por intermédio da Regional da Zona Noroeste, a realização de pagamentos de forma indevida (através de cheques) e retenção de contribuição previdenciárias pela Prefeitura de Santos.
A Promotoria realizou oitivas de testemunhas e obteve documentos que comprovaram os depósitos ‘irregulares’. Cópia inquérito foi enviada ao Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), à Promotoria Criminal e Procuradoria Geral de Justiça. O caso acabou ‘em pizza’, como diz o dito popular.
A Prefeitura de Santos informa que prima pela transparência e sempre atua com respeito à legislação, seguindo os princípios da governança na administração pública.

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