Travessia Guarujá-Bertioga: técnicos do MP-SP confirmam necessidade de aprofundamento de leito e balsas com motor
Uma vistoria ‘in loco’ foi realizada no dia 03 de junho último

Carlos Ratton
23.07.2026
Fotos: Divulgação/Tony Valentte/Prefeitura de Bertioga/Agência Brasil-EBC
Técnicos do Centro de Apoio à Execução (CAEX), órgão formado por equipes multidisciplinares (como engenheiros, médicos e contadores) que auxiliam juízes e promotores em investigações, emitiu recentemente parecer técnico, a pedido do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), com objetivo de avaliar as condições de funcionamento da travessia Guarujá-Bertioga. Uma vistoria ‘in loco’ foi realizada no dia 03 de junho último.
No documento, os especialistas foram claros: “para reduzir o tempo de espera dos usuários em períodos de alto carregamento, seria necessário reduzir o tempo de ciclo ou colocar mais balsas, todavia, a estrutura de atracação presente hoje não possibilita incremento de embarcações com segurança. O local tem estruturas de concreto que trariam risco de abalroamento caso houvesse a atracação de mais de uma barcaça ao mesmo tempo. Logo, sugere-se o aprofundamento do leito marítimo nos locais de tráfego das embarcações e, se possível, a substituição das balsas rebocadas por autopropelidas (com motores), uma vez que estas últimas exigem menor tempo de manobra e são, geralmente, mais rápidas”.
O parecer técnico serviu para embasar um inquérito civil aberto para avaliar as condições das embarcações e se os serviços não estão sendo prestados de forma precária e ineficiente. Isso porque, conforme adiantado e publicado pelos Inconfidentes, há anos a travessia entre os dois municípios, no Canal de Bertioga, causa transtornos a turistas e moradores por conta do sistema manter-se operando com balsas sem motores, conduzidas por rebocadores.

Quando a maré baixa e a travessia para. Isso porque a hélice e o fundo do rebocador tocam na lama próxima às margens que leva veículos e pedestres aos atracadouros existentes no canal. O resultado todos conhecem: usuários praticamente impedidos de trabalhar, estudar e receber tratamento de saúde e fazer outras atividades importantes do dia a dia. O Governo de São Paulo já prometeu mudar o sistema, mas nada foi feito até agora.
Boas condições
Os técnicos concluíram, no entanto, que as balsas e rebocadores que as conduzem estão adequados para operação, não sendo encontradas avarias ou falhas que pudessem comprometer o serviço prestado. Ao mesmo tempo, informaram que balsas rebocadas necessitam de maior espaço para manobras do que barcaças autopropelidas (com motores).
“A combinação rebocador/balsa forma um conjunto muito longo e pesado, assim, a barcaça tende a seguir seu próprio momento e deriva lateralmente, abrindo um raio de curva muito maior do que uma embarcação autopropulsada faria sozinha”.
Além disso, explicam os técnicos do CAEX, “mudanças de direção devem ser lentas e graduais de modo a evitar que a articulação mecânica que liga balsa e empurrador sofra tensões excessivas. O vento e a correnteza também exercem forte influência na superfície da balsa (efeito "vela"), exigindo ainda mais espaço para corrigir a rota com segurança”.
Tempo
Conforme o monitoramento realizado e a entrevista feita com os funcionários, os técnicos descobriram que o tempo de ciclo para embarque – travessia – desembarque que leva em média 20 minutos. E por conta das balsas terem 30 veículos de capacidade de transporte, o tempo máximo de espera é de 40 minutos se houver apenas uma balsa em operação e não mais de 30 carros na fila para o embarque.
“Se duas barcaças estiverem transportando sem fila de mais 30 automóveis, o tempo médio de espera passa a ser 20 minutos. Caso a fila exceda 30 carros em espera, o ciclo total da travessia ultrapassará os 40 minutos”, informaram os técnicos quando avaliaram possível omissão administrativa por parte do Governo do Estado de São Paulo em relação a filas com tempo de espera superior a 40 minutos e possíveis falta de manutenção preventiva das embarcações, desgaste estrutural e ausência de um plano emergencial para a redução do tempo de tráfego.
Violação
O inquérito civil foi aberto baseado na possibilidade de estar ocorrendo violação do direito básico do consumidor à prestação de serviços públicos adequados e eficazes, diante das falhas no modelo atual baseado em balsas rebocadas, que geram constantes atrasos nas manobras
Vale lembrar que o sistema de balsas entre Guarujá e Bertioga, como de outras travessias litorâneas, é administrado pelo Governo do Estado de São Paulo. A gestão e a fiscalização são de responsabilidade da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL), operadas pela empresa BK Vias.
Números
Segundo informado aos técnicos do CAEX, o sistema de balsas que interligam Bertioga e Guarujá tem volume diário médio transportado de 1,2 mil veículos, 180 motos e 1,3 mil pedestres, contando com três balsas para este trecho.
No entanto, uma das embarcações fica em espera, sendo utilizada quando uma das outras balsas está em manutenção e que apenas uma balsa é operada em horários de menor demanda.
Também foi ratificado que as barcas utilizadas são do tipo rebocadas, em que o transporte de veículos ou cargas é feito por meio de uma embarcação de fundo chato que não possui motorização própria e depende de um rebocador (ou empurrador) para se mover.
A atracação em ambas as margens ocorre em píer flutuante que se conecta à terra firme por meio de rampa articulada, possibilitando com que a plataforma se movimente conforme a maré.
Segundo o representante da empresa operadora, a Capitania dos Portos avalia periodicamente as condições de manutenção das balsas e a Marinha confere se as documentações pertinentes estão atualizadas e corretas.
Ao questionarem os funcionários da operadora da possibilidade de operar as três balsas ao mesmo tempo, em casos de alta demanda como feriados e fins de semana, os técnicos do CAEX obtiveram como resposta que o tipo de conjunto utilizado (balsa + rebocador) impede a atracação nas laterais do píer flutuante, uma vez que o navio empurrador ficaria em posição desfavorável dependendo da correnteza do momento.
“Também existem estruturas de concreto nas laterais do píer que dificultariam a manobra das balsas, além da limitação de calado dos rebocadores, pois em maré baixa há risco de abalroamento da hélice no fundo”, revelaram os técnicos.

Engenheiro José Manoel Ferreira Gonçalves
Água Viva
Responsável pela denúncia que se tornou inquérito civil, a Associação Guarujá Viva (AGUAVIVA), focada na defesa ambiental e qualidade de vida, enviou aos Inconfidentes a posição encaminhada ao MPSP sobre o parecer do CAEX. Nela, a Direção da entidade fez questão de registrar o reconhecimento da qualidade técnica do trabalho desenvolvido. Entretanto, entende que as conclusões constantes do parecer não afastam a permanência da situação que motivou a instauração do inquérito Civil.
“A representação apresentada pela Associação jamais se restringiu ao estado de conservação das embarcações ou à regularidade da manutenção dos equipamentos. O objeto da denúncia refere-se à ineficiência do serviço público essencial de travessia entre Guarujá e Bertioga, especialmente nos períodos de maior demanda. Nesse aspecto, o próprio parecer técnico confirma circunstâncias que corroboram a representação: a existência de gargalos operacionais que impedem a ampliação da capacidade do sistema justamente nos períodos em que a população mais necessita do serviço”, explica o engenheiro e presidente da ÁGUAVIVA, José Manoel Ferreira Gonçalves

Governador Tarcísio de Freitas
Na verdade
Não há muita esperança de que o sistema vai mudar rápido. Segundo já explicado pela Secretaria de Parcerias e Investimentos (SPI), só a partir do terceiro ano da concessão, é que a empresa vencedora da licitação vai oferecer novas embarcações. E tem mais. Somente até o sétimo ano, toda a frota estará integralmente renovada. Portanto, as atuais balsas devem continuar operando até meados de 2029.
O Governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) prometeu, e nunca cumpriu, um projeto de drenagem no Canal de Bertioga para o aumento do calado para a facilitação do tráfego e a atracação das barcas.
Já houve abaixo-assinados com a reivindicação da retirada dos rebocadores e o aumento do calado do canal para facilitar as atracações das balsas. O contrato com a concessionária prevê investimento de R$ 2,5 bilhões para a renovação completa da frota, com a substituição das atuais balsas movidas a diesel por mais de 40 embarcações 100% elétricas em todo o sistema concedido.
Todas as etapas do contrato, incluindo a entrega das novas embarcações, a execução das obras e a qualidade do serviço prestado, serão acompanhadas e fiscalizadas pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), conforme os prazos, metas e padrões definidos em contrato.

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