Túnel Santos Guarujá: o maior problema não é quem banca a obra
Carlos Ratton

Carlos Ratton
20.04.2026
Fotos: PMS/Facebook/APS/Divulgação/ Everton Amaro/Fiesp
Agora que ficou definido que o túnel submerso entre Santos e Guarujá será custeado totalmente pelo Governo Federal - o governo estadual (Tarcísio de Freitas), que até então havia alardeado que utilizaria um crédito suplementar de R$ 2,64 bilhões do orçamento próprio, resolveu pegar o dinheiro emprestado no Banco do Brasil, cujo governo federal é acionário - há outras questões, além de quem é o ‘pai da criança’, envolvendo o túnel que muita gente não sabe e nem os políticos locais informam com clareza ou transparência necessárias.
Já é sabido que a a Parceria Público-Privada (PPP) do túnel Santos-Guarujá prevê um aporte público totalizando R$ 5,2 bilhões, enquanto que a Mota-Engil (vencedora da licitação) complementa o R$1,6 bilhão restante, contabilizando um investimento total de R$ 6,8 bilhões.
No entanto,após ouvir internautas ainda cheios de dúvidas sobre o túnel, Os Inconfidentes conversaram com alguns técnicos, que estão se debruçando sobre o empreendimento, e com a Autoridade Portuária de Santos (APS) sobre os reflexos que o equipamento irá causar no dia a dia da população.
O arquiteto urbanista e professor universitário José Marques Carriço (foto abaixo), por exemplo, lembra que aproximadamente oito mil caminhões circulam diariamente pelas duas margens do Porto de Santos, segundo dados da própria APS e que haverá um esforço grande da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de Santos para evitar congestionamentos na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves (Santos).
“A CET terá que providenciar um plano de gestão no sistema viário de acesso ao túnel que direcione esses veículos para a Perimetral, como era discutido internamente na Prefeitura de Santos”, afirma o urbanista que já foi funcionário público santista.

José Marques Carriço
Carriço, como outros técnicos, prevê a ampliação de empresas retroportuárias no Macuco, que utilizarão imóveis desocupados do bairro e a possibilidade de circulação de carga perigosa no túnel junto com outros veículos, o que para ele não é um dos maiores problemas desde que haja segurança.
“Mas esse último só acontecerá se a concessionária permitir. Como esse tipo de veículo é identificado, é simples e desejável impedir que isso ocorra. Mas isso não afasta a necessidade de haver infraestrutura de socorro dentro do túnel e um plano de contingência articulado com outros agentes das esferas federal e estadual”.
Balsas
Como já foi anunciado, o sistema de travessias via balsas não será extinto e permanecerá vantajoso de acordo com a capacidade de gestão do sistema pelo futuro concessionário e de acordo com o destino da viagem de quem faz a travessia. “Porém, se novos empreendimentos portuários continuarem a ser implantados nas duas margens do Porto, o conflito da navegação é inevitável e o tempo de percurso vai aumentar ou o sistema ficará limitado”, finaliza o arquiteto urbanista.
Santaella
Como já foi anunciado, o traçado defendido pela APS ocorre, no lado Santos, ao final da Rodrigues Alves, com uma desapropriação privada que atingiria, além do galpão, o prédio da Guarda Portuária.
José Santaella Redorat, diretor da Associação dos Moradores e comerciantes da Avenida Campos Melo (foto abaixo), que acompanha há meses as discussões, disse aos Inconfidentes que o acesso ao túnel também prevê intervenções importantes entre as avenidas Rodrigues Alves, Senador Dantas e Rua José do Patrocínio.
Ele e os moradores já realizaram inúmeras reuniões com representantes da APS, parlamentares e o empreendedor. No entanto, até hoje, buscam transparência no processo, diálogo com moradores e empresários, avaliações justas dos imóveis e indenizações adequadas para todos os afetados. “Grandes obras precisam ser construídas com a cidade e não contra ela”, dispara.

Santaella e moradores em uma das reuniões no Macuco
Para o diretor, a transparência das informações é fundamental para que moradores, empresários e a comunidade compreendam os impactos do projeto e possam participar do debate sobre o futuro da região. Lembra que o modelo econômico do projeto prevê R$ 494.789.733,00 para desapropriações em Santos e somente R$ 34.245.279,00 em Guarujá, totalizando R$ 544.290.013,00.
Vale lembrar que após duas reportagens de Os Inconfidentes, a primeira intitulada “Impacto de túnel pode atingir cerca de 65 mil pessoas em Vicente de Carvalho (Guarujá-SP)” – https://osinconfidentes.com.br/impacto-de-tunel-pode-atingir-cerca-de-65-mil-pessoas-em-vicente-de-carvalho-guaruja-sp/ – e a segunda “Presidente da Câmara de Guarujá (SP) vê com cautela o impacto do túnel em Vicente de Carvalho” – https://osinconfidentes.com.br/presidente-da-camara-de-guaruja-sp-ve-com-cautela-o-impacto-do-tunel-em-vicente-de-carvalho/, a Prefeitura de Guarujá publicou uma errata ao decreto 17.417/26, que institui a Política Municipal de Deslocamento Involuntário (PMDI) para as áreas de entorno de expansão portuária, retroportuária e ferroviária no distrito.
A Prefeitura não explicou a errata mas, no entanto, alterou o artigo 1 do decreto retirando a palavra ‘imediata’ e os três bairros que seriam expressamente atingidos: Paecará, Itapema e Parque Estuário – todos com grande adensamento populacional.
O decreto ressaltava o impactos urbanísticos, sociais, econômicos, fundiários e ambientais decorrentes da implantação do túnel e de obras conexas sobre áreas urbanas consolidadas. A Prainha Consolidada e Marezinha não estavam no decreto, mas já eram alvos de intervenções.
Somando-se os três bairros à Prainha e Marezinha, o número de pessoas atingidas poderia atingir quase 65 mil pessoas (64.762) ou 16,7 mil famílias, conforme últimos levantamentos. Paecará tem 26.054 habitantes; Itapema (26.070) e Parque Estuário 8.238 habitantes. O Distrito de Vicente de Carvalho possui 166 mil habitantes.

Túnel deve causar impactos a vários bairros de Vicente de Carvalho
Sobre a questão de cargas perigosas no túnel, Santaella garante que a história está até agora mal contada. “A CET regra o trânsito na cidade e diz que não permitirá acesso de caminhões com cargas perigosas, mas quem regra no Túnel? Nunca responderam a uma pergunta focada: por que custa tanto mais o quilômetro deste túnel em relação a similares no mundo? Na Alemanha 860 metros imersos custa R$ 2,4 bilhões. O Santos-Guarujá vai custar R$ 7,4 bilhões”, afirma.
APS
A Autoridade Portuária garante que o túnel terá ligação com as vias perimetrais das margens esquerda e direita. O fluxo do tráfego será equilibrado pela ampliação da Avenida Perimetral da Margem Esquerda e pelos dois novos viadutos de acesso à via perimetral da margem direita. Caminhões continuarão sendo proibidos nas vias urbanas de Santos e serão segregados também em Guarujá.
A APS garante que cargas perigosas serão proibidas no túnel, devendo fazer o mesmo caminho que já é feito hoje, dando a volta no estuário e a tarifa de pedágio do túnel está prevista no edital, em valores de hoje, a R$ 6,15.

Prédio da APS em Santos
Quanto aos moradores da Prainha, Vietnã, Marezinha e Porto Seguro, em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá, a APS revela que as famílias residentes na Prainha já estão sendo realocadas para o conjunto habitacional Parque da Montanha, em um convênio com a Prefeitura de Guarujá. Outras desapropriações e/ou transferências de moradores serão negociadas pela construtora.
Quanto a questão da Santos-Brasil ser o suposto principal terminal beneficiado com o túnel, a APS garante que o Porto como um todo será beneficiado. Será facilitado o transporte entre os depots (terminais de contêineres vazios, não alfandegados, estratégicos para a logística global) e os demais de ambas as margens. O Porto de Santos irá se expandir na margem esquerda, com a Poligonal já autorizada na área continental de Santos.
Em 2027
O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, garante que as obras do túnel devem começar no início do ano que vem, com previsão de término em 2030 e que só é preciso continuidade ao projeto, fazer os ajustes finais com relação à governança, que foi orientação do Tribunal de Contas da União (TCU).
Há algumas semanas, o TCU determinou a apresentação de um documento formal de governança que represente a parceria entre os governos para a viabilização do empreendimento e liberação do orçamento público federal para a obra.
O presidente da APS, Anderson Pomini (foto abaixo), afirmou que desde a assinatura do contrato, equipes da empresa vencedora da licitação estão em Santos (SP) realizando trabalhos como sondagem de solo, local para o canteiro de obras, além de reuniões técnicas com as prefeituras envolvidas. O canteiro, inclusive, ficará na margem esquerda, em Guarujá (SP).

Anderson Pomini
O túnel será a primeira travessia submersa do Brasil, com 1,5 quilômetro de extensão, sendo 870 metros em trecho imerso. A obra utilizará módulos de concreto pré-moldados instalados no leito do canal portuário.
O projeto prevê três faixas de rolamento em cada sentido, uma delas adaptada para Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), além de ciclovia, passagem para pedestres e galeria de serviços. A expectativa é que a obra seja concluída em seis anos.

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