Universidade de fachada, desigualdade de base: o projeto político de exclusão educacional em Mato Grosso

Por CristianoTorres1977
05.05.2026
A criação de uma nova universidade federal em Sinop, vendida como avanço para o desenvolvimento regional, escancara uma contradição estrutural e uma operação política que ultrapassa o cinismo institucional. Em um estado onde a educação básica está sendo desmontada de forma sistemática, falar em expansão do ensino superior sem enfrentar esse colapso não é apenas discurso vazio. É estratégia consciente de desvio de foco.
Os dados do SINTEP-MT eliminam qualquer possibilidade de interpretação ingênua. Há queda de matrículas, fechamento de mais de cem escolas, transferência compulsória de responsabilidades para municípios já saturados, explosão de demanda no ensino fundamental e um cenário degradante na educação infantil, onde apenas uma minoria consegue acesso à creche. Isso não é falha de gestão. Isso é método.
O chamado redimensionamento da rede estadual não foi reorganização. Foi retirada calculada do Estado de sua responsabilidade constitucional. Empurra-se a base educacional para os municípios, fragiliza-se o acesso, precariza-se a permanência e, ao mesmo tempo, constrói-se uma narrativa artificial de eficiência. O resultado é direto e mensurável. Exclusão educacional em larga escala.
Nesse cenário, transformar o campus da UFMT em uma nova universidade sem aumento real de investimento não é expansão. É maquiagem institucional. Não há previsão concreta de estrutura, não há política consistente de permanência estudantil, não há garantia de inclusão. O que se apresenta como autonomia é, na prática, abandono administrativo legitimado.
A história do ensino superior brasileiro já demonstrou que universidades públicas não são, por si só, espaços democráticos. Sem políticas estruturais de acesso e permanência, elas reproduzem desigualdades históricas. E em um contexto local marcado pela concentração de poder econômico e influência política, não é difícil antecipar o resultado. A captura institucional por interesses da elite regional não é hipótese. É tendência.
Enquanto a base educacional é desmontada, constrói-se um topo simbólico para sustentar uma narrativa de progresso que não se sustenta na realidade. Trata-se de uma inversão deliberada de prioridades. Não existe democratização do ensino superior sobre um alicerce educacional em colapso. O que existe aí é engenharia política para produzir aparência de avanço.
Há ainda um elemento central que precisa ser dito sem rodeios. A ampliação do acesso de populações historicamente excluídas às universidades públicas gerou reação. O incômodo de setores privilegiados diante da presença de pobres, negros e indígenas nesses espaços não é disfarçado. E uma das formas mais eficazes de conter esse avanço não é barrar o acesso de forma explícita, mas reconfigurar as instituições, esvaziar políticas de permanência e reposicionar o controle.
A proposta dessa nova universidade, nas condições apresentadas, não enfrenta desigualdades. Ela reorganiza essas desigualdades sob uma forma mais sofisticada, menos visível e politicamente mais aceitável.
Celebrar esse projeto ignorando esse conjunto de evidências não é erro de análise. É adesão consciente.
Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais https://sintep.org.br/sintep/Utilidades/view_noticia/modelo-de-educacao-publica-em-mt-deixa-estudantes-para-tras/i:4846

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