Vai passar – Chico Buarque e Francis Hime no Hino à vitória da liberdade contra a ditadura militar

Por Roberto Canuto
28.09.2026
Foto: Agência Brasil
Para encerrar esse primeiro ciclo do tema "repressão militar", falaremos hoje sobre a canção que nosso grande mestre Chico Buarque de Holanda e o genial Francis Hime criaram para manifestar a alegria pelo fim do período mais vergonhoso e triste da política e da vida brasileira.
A ditadura de 1964 a 1985 não foi a única que passamos, mas, com certeza foi a mais grave, a que matou mais, a que torturou de forma mais cruel e assassinou de forma mais brutal tantos jovens e alguns grandes nomes da vida brasileira.
Fora isso, a covardia militar também exilou espontaneamente ou não, mentes brilhantes e corações corajosos que queriam um Brasil melhor.
Chico compôs "Vai passar" no final de 1984, meio que num acerto de contas com os algozes que o perseguiram. Também é um triunfal desfecho da canção "Apesar de você" (que um dia analisaremos por aqui) onde ele dizia ao atual presidente da época, o nefasto General Médici: "Apesar de você amanhã há de ser outro dia...".
Enfim esse dia chegava e era hora de cantar em ritmo de carnaval, um "samba enredo" de vitória da democracia. A única pena é que a "Anistia geral e irrestrita" anistiou não só os presos e exilados, mas também vários carniceiros e covardes turturadores da época, que prefiro nem citar aqui os indignos nomes, mas também criou cobras como o não menos indigno ex-presidente, hoje em prisão domiciliar e sua família não menos nefasta.
Mas o que importa é que vencemos e precisamos lutar muito para que essa época não volte, amparada pela IA e as fake news, pelo gado que é parte de nosso povo e pelo presidente mais nocivo que os estadunidenses já tiveram. Por enquanto comemoremos nossa democracia e lutemos por ela.
MAS O QUE NOS DIZ A LETRA?
"Vai passar nessa avenida um samba popular!": o samba aqui quer dizer a canção de liberdade, a festa da democracia, lembrando que o samba ainda era a maior expressão de nossa arte popular, e, por isso é simbolo aqui de defesa do povo mais humilde.
"Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar": a alegria era tão grande que até as pedras cantavam ou sentiam, analogia poética clássica, citada por Chico.
"Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais.": há tempos Chico já usava o samba como símbolo de idealismo pela justiça social, como revolução cultural.
Os sambas imortais que já passaram pela Avenida que representa o Brasil seriam histórias de heróis que lutaram pela liberdade e por essa justiça, se misturando aos próprios sambas-enredo que já foram feitos nesses temas.
Quem sangrou nessa "avenida" foram esses heróis, famosos ou anônimos, que morreram na repressão militar. Os ancestrais que sambaram já vem desde a época da escravidão até hoje.
"Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada da memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações": durante essa página infeliz da repressão, que os jovens já desconheciam nos anos 80, o país foi roubado por industriais que bancavam a ditadura, onde os militares serviam como mediadores dos estadunidenses que lucravam com negociatas de miliorários daqui e empréstimos em bancos internacionais e nossa dívida externa crescia, enquanto o povo empobrecia, lembrando que as favelas cresceram muito nos anos 70.
"Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais": na ditadura a imprensa era censurada para não mostrar a violência das forças armadas, a fome e pobreza crescentes. Assim o povo estava "cego" e "errante", se apoiando em movimentos pentecostais, tanto nas igrejas evangélicas como na católica, como um modo de ter esperança, construída como "catedrais".
"E um dia afinal tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval": assim, o povo tinha direito a esse "carnaval da liberdade", essa epidemia ofegante de alegria, pois a alegria também passaria de um para outro.
"Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do boulevard": nesse enredo histórico, figuras alegóricas desfilam como "barões famintos" que seriam elites cheias de privilégios sugando os bens do país, os napoleões retintos, gente que veio do povo mas bebeu da engrenagem do poder e os "pigmeus do boulevard" que seriam a classe média que se achava (e se acha hoje) rica, pisando nos mais pobres.
"Meu Deus vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade até o dia clarear": agradecendo a Deus, os autores pedem que Ele venha ver no canto do povo a evolução (brincando com o "quesito evolução") da liberdade que chega aos poucos e que até hoje está difícil. Mas o dia da democracia estava clareando.
"Ai que vida boa, olerê! Ai que vida boa, Olará! O estandarte do sanatório geral vai passar": a vida boa ia começar! O estandarte do povo dizia "Sanatório Geral"! Parecia loucura! Belas horas aos que estão na Escola de Samba da justiça e da democracia! Aos que não, também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…