Vereadora rejeita projeto experimental de Feder nos morros de Santos
Carlos Ratton

Carlos Ratton
26.02.2026
Foto: Divulgação Câmara de Santos/Secretaria Educação SP/Youtube
“Seriam os jovens de comunidades carentes e mais vulneráveis cobaias de uma testagem de adestramento intelectual? Estariam sendo estimulados a um voo raso, sem asas, à beira do precipício para um caminho sem volta no seu desenvolvimento sócio afetivo”.
O desabafo, na tribuna da Câmara de Santos, é da vereadora e psicóloga Claudia Alonso (Podemos), ao saber que o polêmico Projeto Voar, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, sob a batuta de Renato Feder, será implantado em duas escolas de morros santistas - a Professor João Otávio dos Santos (morro do São Bento - foto) e Professora Alzira Martins Lichti (no da Nova Cintra).
O projeto Voar, instituído por uma portaria publicada no dia 4 de fevereiro no Diário Oficial de São Paulo, será aplicado a estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental em 147 escolas estaduais. Cláudia afirma que os pais estão preocupados. “A escolha é por vulnerabilidade, tirando das famílias mais carentes a possibilidade de entenderem o real processo pelo qual seus filhos vão passar?”, questiona.

Uma das escolas escolhidas fica no Morro do São Bento
Segundo o governo estadual, o objetivo é promover a redução das desigualdades educacionais através da recomposição e aceleração das aprendizagens de alunos que apresentam altas e médias defasagens em Língua Portuguesa e Matemática.
A proposta vai agrupar os estudantes em duas turmas distintas: as de nível 'adaptado', que reunirá alunos com altas e médias defasagens e proficiência abaixo do básico; e as turmas nível 'padrão', formadas por estudantes com baixa ou nenhuma defasagem e proficiência equivalente a adequado/avançado.
Especialista
Especialista em saúde mental, inclusão e diversidade, Cláudia Alonso, em entrevista aos Inconfidentes após seu pronunciamento em plenário ainda foi mais dura em relação ao projeto do secretário de Educação Renato Feder.
"Criança não é número, não é fração. Então, se a gente tá falando tanto de inclusão, isso pra mim dói. Essas crianças vão ser rotuladas. Isso vai gerar mais violência. Falam que é um projeto experimental. Nossas crianças e jovens vão servir de experimento? É isso?”, questiona a parlamentar santista, que já acionou sua assessoria para se aprofundar no projeto e vai acionar os deputados e deputadas estaduais da região para que se posicionem publicamente sobre a questão.

Cláudia Alonso se manifestou na sessão da Câmara da última terça-feira
Os termos
Cláudia Alonso vai mais além. Disse à Reportagem os professores foram orientados a não usarem termos pejorativos como a turma dos mais fracos, a turma dos inteligentes e dos bagunceiros para não gerar problema. Ela acredita que o projeto vai afetar a diversidade nas salas de aula podendo gerar problemas de convivência e socialização para um aprendizado colaborativo entre alunos. Ou seja, exclusão ou invés de inclusão.
“Eu não consegui entender, sinceramente. Num processo de aprendizado real, você pede que um colega que tem até mais facilidade te ajudar. Isso faz parte do processo de inclusão. Deveria ser assim, deveria naturalmente ser assim. Isso é um retrocesso absurdo. É um assassinato. E nessa fase de idade, sexto ou nono ano, pré-adolescência, adolescência, que tantos nossos filhos sofrem. E as crianças e adolescentes querem se sentir aceitos no grupo entende?”.
Assim como Cláudia Alonso, educadores de todo estado acreditam que, entre outros problemas, há risco de que os alunos da turma com currículo adaptado sejam alvo de bullying, sendo estigmatizados pelos colegas.
Indiano
O Projeto Voar é inspirado em um projeto indiano e os alunos foram selecionados para o ‘experimento’ de acordo com as notas mais recentes obtidas no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp).
O Governo Estadual alega que a iniciativa visa auxiliar estudantes que não conseguem acompanhar suas turmas porque possuem nível de aprendizagem atrasado em relação aos colegas. São alunos que avançaram de ano, mas apresentam uma distorção entre a série que estão e o conhecimento que possuem.
A meta do projeto é criar condições para que o professor possa adaptar a aula pelo chamado “nível de proficiência” dos alunos e, assim, ajudar o estudante a recompor déficits de aprendizagem para que, num futuro breve, eles alcancem o nível esperado para sua série.

Renato Feder
Conforme já amplamente publicado em diversos órgãos de Imprensa, Renato Feder é marcado por uma gestão baseada na digitalização do ensino, privatização de serviços educacionais e fortes conflitos com professores. Suas polêmicas incluem a tentativa de recusar livros didáticos, erros em materiais, conflito de interesses e monitoramento de docentes.
Em 2023, Feder tentou recusar milhões de livros do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), optando apenas por materiais digitais. Após grande repercussão negativa e críticas de especialistas, ele recuou.
Feder foi CEO e é acionista da empresa Multilaser, que fornece equipamentos de tecnologia para o governo. A relação gerou investigações sobre conflito de interesses, já que a empresa possuía contratos com o Estado de São Paulo durante sua gestão.
Professores denunciaram a instalação compulsória de um aplicativo de monitoramento nos celulares pessoais, além de métodos considerados "de cima para baixo", gerando resistência da classe docente.
Sob sua gestão, materiais educacionais apresentaram erros históricos graves, como a atribuição da abolição da escravidão a Dom Pedro II em vez da Princesa Isabel, resultando na exoneração do número dois da secretaria.
No Paraná, implementou a "Prova Paraná" (digital) e teve atritos por "se virar" durante aulas remotas na pandemia. Também houve controvérsias sobre materiais chamando opositores de ditaduras de "antipatriotas".
Feder é defensor da contratação de militares para atuar nas escolas e da terceirização da gestão de unidades educacionais. É visto como um perfil tecnocrata que busca eficiência, mas seus métodos frequentemente geram desgaste com sindicatos e educadores, resultando em recuos em diversas propostas após pressão popular e técnica.

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