Verticalização: Santos cresce sem olhar a classe trabalhadora

Segundo relatos emocionados obtidos por Os Inconfidentes, pedreiros, encanadores, pintores, eletricistas e atividades correlatas, muitas de alto risco, como a de pintura de fachadas, fundamentais no dia a dia da população, vem sofrendo discriminação social diariamente

Verticalização: Santos cresce sem olhar a classe trabalhadora

Carlos Ratton

28.05.2026

Fotos: Tony Valentte

Enquanto a cidade de Santos (SP) discute expansão e verticalização em eventos de instituições privadas e que só vê o lado financeiro da questão, na vida real, fora do restrito ponto de vista empresarial, uma situação grave e silenciosa vem ocorrendo no município que vem prejudicando substancialmente milhares de trabalhadores que nada tem a ver com a construção civil: a dos prestadores de serviços em condomínios.

Segundo relatos emocionados obtidos por Os Inconfidentes, pedreiros, encanadores, pintores, eletricistas e atividades correlatas, muitas de alto risco, como a de pintura de fachadas, fundamentais no dia a dia da população, vem sofrendo discriminação social diariamente por conta da falta de vagas para estacionar fora e dentro dos prédios.

Para piorar, eles têm que conviver ainda com portarias sem coberturas para proteção contra chuvas, acessos humilhantes que levam ao constrangimento coletivo e constante, controles abusivos e discriminatórios e, em muitos casos, assédio moral.

A Reportagem levantou que os prédios novos em Santos estão desconsiderando as necessidades operacionais dos profissionais, o que gera insegurança e prejuízos como a quebra de vidros de veículos para furto de ferramentas caras em seu interior.

Também que arquitetos não projetam, empreendedores não exigem e síndicos não estimulam a reserva de espaço nos edifícios para facilitar o acesso e a segurança dos trabalhadores dentro dos condomínios.

Há casos de profissionais que precisam se deslocar quadras para buscar uma ferramenta porque são obrigados a estacionar motos e automóveis longe do local de trabalho. Muitos já tiveram bicicletas roubadas. Até carros perderam.

Essenciais  

Há décadas atuando como pedreiro, encanador e pintor no bairro do Gonzaga, Antônio da Silva afirma que praticamente todos os prédios novos que foram erguidos na cidade praticamente não ajudam o trabalhador que faz manutenção nos apartamentos e outros ambientes prediais.

“Teria que ter uma vaga de garagem para que pudéssemos estacionar nossos veículos enquanto estamos trabalhando. Os proprietários e os construtores poderiam pensar em um ambiente operacional, porque sempre tem algum serviço a ser feito. Não há como desprezar os serviços de pedreiro, eletricista, pintor, jardineiro e outros com tantos prédios em Santos”, afirma Silva.

Antônio da Silva explica as dificuldades dos trabalhadores

Para o trabalhador, ter uma garagem para o prestador de serviços é mais do que uma questão de operacional, é proporcionar dignidade a quem, em muitos casos, salva o morador de uma situação grave, como vazamentos, curtos-circuitos e outros, situações que atrapalham o cotidiano.     

“Quando o trabalhador fosse atender, mesmo que para apresentar um orçamento, seria importante ter um lugar para colocar seu carro, muitas vezes repleto de ferramentas caras, sua moto e bicicleta. O espaço para deixar o seu veículo, seu meio de transporte, agiliza e traz segurança ao prestador de serviços que fica o tempo todo preocupado com a possibilidade ter algum prejuízo quando sair do trabalho”.  

Segundo Antônio da Silva, não são poucos os casos de trabalhadores que se depararam com o vidro do carro quebrado e suas ferramentas furtadas. Ele revela que um martelete, por exemplo, custa cerca de dois mil reais. Além disso, entra na conta o custo para reparar o carro. Ou seja, em minutos, o trabalhador é obrigado a absorver um prejuízo que praticamente inviabiliza seu ganha pão.

“Muitos compram um carro ou moto com muito sacrifício e corre o risco de perder um bem fundamental para o trabalho. “Sem ferramenta, sem o meio de transporte, você fica sem nada. Sem poder trabalhar. Às vezes, o trabalhador precisa de uma ferramenta específica e tem que andar vários quarteirões para busca-la porque não foi encontrada vaga na rua e nem no prédio”, explica.  

Dignidade

O trabalhador lamenta que em muitos prédios, principalmente os mais novos, não existe cobertura suficiente pro prestador de serviço esperar enquanto o proprietário autoriza a entrada. Os entregadores de mercadorias e de comida sofrem o mesmo problema. “Não precisa muito. Um metro é suficiente que se tenha acesso ao interfone sem ter que ficar na chuva. Os prédios possuem espaço, inclusive para uma garagem operacional, mas eles (empreendedores) não estão nem aí para o trabalhador. No entanto, o morador precisa da gente toda hora”.

Os trabalhadores, muitas vezes, desistem do trabalho por falta de vagas

O pedreiro José Emídio Nascimento também tem muita história para contar sobre o verdadeiro ‘sufoco’ para trabalhar. “Fui fazer um trabalho no canal dois (Avenida Bernardino de Campos), mas o prédio não permitia minha moto na garagem e nem em frente ao prédio. O trabalho iria durar o dia todo. Era preferível perder o trabalho de cerca de dois mil reais do que minha moto que custa quase 20. O proprietário acabou cedendo um espaço no prédio que não atrapalhasse. Mas nem sempre isso acontece”.   

O trabalhador revela que outra situação ocorreu na Ponta da Praia. Tinha feira próximo do prédio e ele deixou a moto em frente, tendo um monte de vagas dentro do edifício. “Quando estava trabalhando, fui avisado que teria que tirar a moto e estacionar em outra rua. Troquei de roupa e fui embora. Voltei com ajudantes, todos de bicicleta e, quando terminamos o serviço, só encontramos as correntes. Não é fácil não, nessa parte aí, o trabalhador sempre leva prejuízo. Ninguém quer ajudar não. É difícil”, finaliza.

30 mil

José Bento Alves de Jesus desistiu de trabalhar em Santos por causa da falta de estacionamento. Ele vivia saindo de madrugada para obter uma vaga porque a maioria dos prédios não aceita deixar o carro na garagem.

“Ano passado eu fui roubado, prejuízo de 30 mil reais, que não é pouco né, para gente que começa do lado de baixo já é um negócio meio puxado, mas a gente batalha né, não pode baixar a cabeça. Temos que seguir em frente”

Jesus está trabalhando em São Paulo. “Gonzaga, Boqueirão, Ponta da Praia são áreas muito visadas para roubos. Não há segurança alguma e ninguém faz nada. Pode ser o valor que for, não pego nada. Prefiro trabalhar em um lugar que paga menos mas ainda é mais seguro”, finaliza.

Comentários dos leitores

Carregando comentários…