Vilarejo – A canção que é um hino à utopia
Por Roberto Canuto

Por Roberto Canuto
05.03.2026
Essa canção me emociona tanto pela letra como pelo arranjo maravilhoso e a doce interpretação de Marisa Monte. Tudo combinando com a beleza do texto.
"Vilarejo" é uma utopia que, se colocada em prática, seria o mundo perfeito, feito de amor, empatia, fraternidade, poesia e tudo mais que pudéssemos querer, na direção do "bem para todos".
Ao mesmo tempo essa letra usa cenas de nosso dia-a-dia, como a visão do horizonte, a cidadezinha do interior, os jardins e um grande amor. Mas então, porque não chegamos a esse "mundo perfeito"? Ora, melhore o mundo buscando isso!
Vamos ler a letra e analisá-la?
VILAREJO (Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Pedro Baby)
"Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom.
Na varanda, quem descansa vê o horizonte deitar no chão.
Pra acalmar o coração, lá o mundo tem razão.
Terra de heróis, lares de mãe, paraíso se mudou para lá.
Por cima das casas, cal; frutas em qualquer quintal.
Peitos fartos, filhos fortes, sonho semeando o mundo real.
Toda gente cabe lá, Palestina, Shangri-lá!
Vem andar e voa, vem andar e voa, vem andar e voa.
Lá o tempo espera, lá é primavera!
Portas e janelas ficam sempre abertas prá sorte entrar, em todas as mesas, pão.
Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção.
Tem um verdadeiro amor para quando você for."
Abaixo o que eu entendo sobre a letra:
O "vilarejo ali" remete a algo que está debaixo de nossos narizes, um paraíso que só vê quem aceita a utopia do bem, que pode vencer no futuro. Na frase "onde areja um vento bom", o vento é uma metáfora de boas novas, onde acontecem só coisas boas.
O verso "Na varanda, quem descansa vê o horizonte deitar no chão", entendo que, ao invés da correria do dia-a-dia do mundo normal, no "vilarejo" o tempo demora a passar ou simplesmente não passa. Lá tudo é tão parado e calmo que o horizonte parece se mexer e "deitar" quando o sol nasce ou se põe. É a tranquilidade!
"Pra acalmar o coração, lá o mundo tem razão": esse mundo que vivemos é tão egoísta e violento, que perdeu a razão de ser. Nada faz sentido, mas no "vilarejo" faz.
"Terra de heróis": No vilarejo um é herói do outro, ajuda e luta pelo outro, não só a própria família. "Lares de mãe": No vilarejo estamos seguros, como na casa de nossa mãe, no colo dela, a ponto de dizermos que o "paraíso se mudou para lá".
"Por cima das casas, cal": Há cuidado com as pessoas que amamos, pois lá até as casas são protegidas do desgaste do tempo. "Frutas em qualquer quintal": O alimento natural, vindo da terra, sem precisar comprar.
"Peitos fartos, filhos fortes": Aqui o vilarejo aparece como um lugar onde todos tem fartura e são saudáveis. "Sonhos semeando um mundo real": se o mundo real do vilarejo é gerado pelos sonhos, pelos desejos de moradores que só querem uma vida feliz, a vida será feliz.
"Toda gente cabe lá": O vilarejo é pequeno, mas cada pessoa que quiser viver lá está convidado. Ora, como caberá tanta gente? O que deduzo é que os autores convidam a todos para a expansão desse vilarejo dessa utopia no mundo, esse paraíso tão almejado por povos que sonharam com o Nirvana, com a "Palestina", com "Shangri-lá".
"Vem andar e voa": No vilarejo você pode sonhar, você pode voar, flutuar de alegria.
"Lá o tempo espera": Voltando a lembrar que quando estamos felizes, o tempo não passa. "Lá é primavera": nessa estação do ano, não sofremos com o calor, nem com o frio, e, além disso há flores coloridas nesse frescor.
"Portas e janelas ficam sempre abertas prá sorte entrar": se deixamos portas e janelas abertas em nossas casas, na maioria das cidades, quem entra é um ladrão. No vilarejo não, pois as pessoas são realizadas e ninguém rouba ninguém. O que entra é a sorte, pois a vida é mais justa e não dá sopa para o azar (perdão - aqui eu fiz trocadilho de ideias).
"Em todas as mesas, pão": claro, pois no vilarejo cada profissional entrega ou vende barato o que faz, o que fabrica. A sociedade é partilhada, socializada.
"Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção": sim, no vilarejo as pessoas são alegres, trocam flores, usam roupas com flores coloridas, e seus destinos, em seu futuro haverá flores, ou seja, felicidade. E sobram flores até para essa canção. Aqui os autores "bateram um bolão" em poesia, que coisa linda!
"Tem um verdadeiro amor, para quando você for!": esse "Vilarejo" é tão bom que se você aparecer por lá, acaba conhecendo o amor de sua vida! Precisa mais?
Belas horas aos que procuram esse "Vilarejo" sempre. Aos que não, também!
Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

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