Guarujá: falta de água começa a atingir economia da cidade

Vídeo encaminhado aos Inconfidentes revela que restaurantes já não conseguem lavar pratos

Guarujá: falta de água começa a atingir economia da cidade

Carlos Ratton

31.08.2026

Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal/Instagram  

Um vídeo encaminhado exclusivamente aos Inconfidentes no último sábado (29) mostra o verdadeiro sufoco ao qual comerciantes já estariam passando em Guarujá (SP) em função da falta de água que assola o município, muita agravada após a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), promovida pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), apoiado por todos os prefeitos e prefeita da Baixada Santista.

Nele, um advogado, em contato com uma das fontes de Os Inconfidentes, permitiu mostrar sua gravação do movimento de caminhões-pipa entrando na cidade e, junto com as imagens, explicando que o desabastecimento estaria já afetando a economia local. “Os restaurantes estão sem água para lavar os pratos”. Confira o vídeo em nossas redes sociais.

Depois, da indignação via vídeo, o advogado faz um desabafo para o mesmo interlocutor. “Tu acredita que eu estou indo para Santos (SP) almoçar porque, em Guarujá, os restaurantes não estão recebendo os clientes e recorrendo a caminhões-pipa. Olha a que ponto se chegou. Eu moro numa rua que, qualquer chuva, alaga e o acúmulo de água chega até o meio da porta dos carros. Essa água poderia ser armazenada, tratada e distribuída. A Sabesp não o faz e mantém o desperdício”. 

              

Grupo

Outras fotos foram enviadas à Reportagem. Numa delas uma moradora mostra um caminhão-pipa abastecendo um condomínio vizinho, que alertou os moradores no dia anterior sobre a falta de água. Também chegou um ‘card’ de um estabelecimento informando o seguinte aos clientes: “sábado à noite – precisamos fechar. Sem uma gota de água desde ontem. Obrigada Sabesp”. Outra advogada chegou a publicar uma paródia sobre a falta de água.    

Vale lembrar que em entrevista concedida semana passada aos Inconfidentes, o advogado guarujaense Renato Cardoso disse que pretendo organizar, com advogados, ações coletivas para orientar a população e pressionar a Sabesp a regularizar o fornecimento de água em Guarujá. Confira em https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/guaruja-falta-de-agua-podera-gerar-acoes-em-cadeia-contra-sabesp

Cardoso também fez um vídeo recente, publicado nas redes sociais e reproduzido pelos Inconfidentes, mostrando o drama pessoal de não poder contar, apesar de pagar a conta regularmente, com sequer uma gota de água em sua residência. Ele acredita que, se os processos forem bem instruídos, a Sabesp terá grandes prejuízos financeiros por conta da má prestação de serviços.

Nesta segunda-feira, revelou aos Inconfidentes: “estou falando com alguns advogados para fazermos uma manifestação diferente. Já que a Sabesp não ouve as nossas manifestações, vamos pedir o apoio da Associação Comercial e Empresarial de Guarujá (ACEG) e da Câmara de Dirigentes Logistas (CDL) para que saibam quais as providências devem adotar para ser possível ingressar com ação indenizatória. Além disso, penso e estudar ingressar com uma ação popular contra a SABESP de obrigação de fazer, independente do que eventualmente o Ministério Público e a Defensoria Pública possam estar fazendo”.

Paralelamente, moradores e lideranças comunitárias do Município, na sede da Sociedade Amigos do Paecará (SAP), oficializaram a criação do Comitê Especial de Moradores Impactados pela Falta d'Água (CEMIFA).

A iniciativa foi articulada pela Confederação Municipal das Associações de Moradores de Guarujá (CMAG) em resposta ao desabastecimento recorrente que afeta a população do município. Confira a reportagem completa em https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/falta-de-agua-populacao-vai-cobrar-prefeitura-de-guaruja-e-mover-acao-contra-sabesp

O advogado Renato Cardoso

Cava

Em janeiro desta ano, Os Inconfidentes publicaram uma reportagem retomando a discussão sobre um antigo projeto que acabaria com a falta de água em Guarujá e Vicente de Carvalho: a transformação da cava da pedreira em um reservatório gigante.

A cava é uma antiga pedreira da Engebrita, localizada no quilômetro 72,5 da Rodovia Domênico Rangoni, Piaçaguera-Guarujá. Teria capacidade para armazenar cerca de três bilhões de litros de água, o suficiente para abastecer a cidade por meses de estiagem.

O projeto é discutido desde 2010. A Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) chegou abrir licitações em 2021, mas a proposta não prosperou por questões de suspensão da desapropriação da área particular e outros trâmites burocráticos com a Prefeitura de Guarujá.

O investimento previsto era de mais de R$ 133 milhões. A tecnologia incluía a interligação de adutoras e um sistema de bombeamento e previa a instalação de equipamentos de geração hidrelétrica para suprir parte da energia da estação elevatória.

O impacto seria a melhoria do sistema beneficiará toda a Baixada Santista, pois outros municípios não precisarão mais transferir água para a cidade.

Foto Cava da Pedreira

Especialista

Mestre em Planejamento e Gestão do Território pela Universidade Federal do ABC (UFABC), graduado em Engenharia e História pela Universidade de São Paulo (USP) e atual Coordenador Administrativo e Financeiro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), Amauri Pollachi, em entrevista exclusiva, disse que a cava teria uma condição de armazenamento de água semelhante a que existe lá no Túnel Santa Tereza, que fica entre Santos e São Vicente.

“Daria uma tranquilidade muito grande para o abastecimento do Guarujá, até porque você poderia estocar a água produzida em períodos de chuvas para depois utilizar em períodos como a gente está agora. Ela seria fundamental”, afirmara Pollachi.

Pesquisador na UFABC, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, especialista em saneamento e recursos Hídricos, além de ter exercido diversos cargos na Sabesp e na Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo e, ainda, ter sido presidente da Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp, Amauri Pollachi (foto) disse que a Sabesp, entre os anos 2004/05, recebeu um engenheiro especialista em recuperação ambiental de pedreiras, que se ofereceu transformar a cava em reservatório.

“Com o encerramento da lavra, uma cava tem que ser de alguma forma utilizada. Como parque, depósitos de rejeitos, um aterro sanitário e outras múltiplas possibilidades, inclusive como reservatório de água. Foi lançado um edital para que fosse feito o projeto, mas houve divergências no valor que a Sabesp queria pagar para desapropriação ou indenização ao proprietário da área da pedreira. O proprietário queria 60 milhões e a Sabesp queria pagar R$ 25 milhões”.

Para o especialista, o ideal era que fosse feita uma arbitragem, mas a Sabesp, em 2023, já na reta final preparada para privatização, resolveu encerrar investimentos e optou por encerrar o edital e o projeto. “Que foi um erro brutal em termos de desenvolvimento regional. De aproveitamento de algo que lá hoje é uma chaga dentro da área ambiental e que você iria aproveitar para o melhor benefício possível, que é reservação de água para a população que mais precisa”, disparou Pollachi.

Vontade política

O especialista trouxe à tona um projeto antigo que só não foi para frente por conta da falta de representação política da Baixada Santista junto ao Governo do Estado.

Há anos que entra prefeito e sai prefeito. Entra deputado e sai deputado, e ninguém com voto popular fez o mínimo esforço para pressionar o Governo de São Paulo. A situação atual é a mesma. Por intermédio das redes sociais, culpam a Sabesp (hoje privatizada) pela falta de água, mas não Tarcísio de Freitas que a privatizou.

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