Historiadores temem prejuízos a monumentos históricos de São Vicente (SP) durante reformas
Praça 22 de Janeiro, segundo eles, está sem projeto, prospecção arqueológica e respeito aos bens tombados.

Carlos Ratton
20.08.2026
Fotos: Divulgação e Facebook
O advogado e historiador Flávio Viana e o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente (IHGSV), Paulo Eduardo Costa, manifestaram aos Inconfidentes preocupação em relação às reformas que a Administração Kayo Amado (Podemos) vem realizando na Praça 22 de Janeiro, segundo eles, sem projeto, prospecção arqueológica ou respeito aos bens tombados.
“A escavação da praça atingirá o córrego do Sapateiro e o lençol freático, revelando um importante marco histórico para mapear a formação e expansão da cidade”, aponta Viana, que reconhece, no entanto, que o piso não era o ideal para uma praça histórica.
“Porém, você tem que encontrar um piso que seja compatível com o período da praça. Segundo, você tem que substituir toda aquela iluminação por uma subterrânea, de preferência com postes próximos do que foi feito na Rua 15 de Novembro, em Santos (SP), que tenham também um diálogo histórico com o local. Terceiro, se você olhar o principal monumento que é no centro da Praça do Quarto Centenário, ele está solapado, está enterrado. Uma parte do monumento está abaixo do nível da praça. Então, precisava fazer uma escavação no entorno do próprio monumento para mostrar a totalidade dele”, explica.

Advogado Flávio Viana
A Prefeitura de São Vicente já divulgou que a revitalização integra o programa "São Vicente de Cara Nova". Melhorias no piso e calçadas visam facilitar a circulação de pedestres e pessoas com mobilidade reduzida e a liga o circuito turístico do Centro, unindo a praça à revitalizada Biquinha dos Doces e ao Gonzaguinha.
O projeto inclui a reforma completa do Espaço Multicultural, implantação de novos playgrounds, academia da terceira idade (ATI) e melhorias de acessibilidade para ligar a praça à Biquinha e à orla.
A reforma estrutural gerou um investimento de cerca de R$ 600 mil via Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, incluindo climatização, novas poltronas, projetor audiovisual, novo mobiliário e reparos elétricos. Também vai gerar a instalação de novos playgrounds para as crianças e equipamentos de ginástica para a academia da terceira idade.

Outros
A Praça 22 de janeiro possui outros monumentos que também, segundo Flávio Viana, carecem de uma atenção especial, desde o Relógio de Sol, que está na ponta, já próximo da Biquinha, até a Ermida da Pedra, que faz a luz ao Pérsico de Queiroz Filho da Revolução de 32, que é uma pedra. “E nós temos outros monumentos que já estiveram ali e desapareceram ao longo do tempo. Então era uma oportunidade também de refazer o busto de Benedito Calixto”.
Ainda conforme o advogado, o Córrego do Sapateiro, que passa por baixo da Praça 22 de Janeiro, interagia com o monumento do Ipupiara, que foi incendiado sem que fosse descoberto os responsáveis.
“Na reforma da década de 90, o rio voltou a fluir pela praça, fazia o lago do Ipupiara. Há um espaço na ponta da biquinha, que é um local aberto com gradeado, que pode-se ver o riacho, que que vem desde à Rua Frei Gaspar, segue pela Capitão-Mor Aguiar, sai pela Rua do Colégio ou pela Marquês de São Vicente, vai até a Biquinha de Anchieta. Tem-se um ponto histórico importantíssimo, porque você tem um marco legal, um mapeamento que deveria ser feito e dali a gente consegue localizar talvez a primeira vila, provavelmente a segunda vila e ao mesmo tempo marcas do tempo o uso da cidade, inclusive a expansão do centro histórico até a Capitão-Mor Aguiar”.
Outra coisa que é extremamente importante sobre a praça 22 de Janeiro é que ela está localizada na onde foi a primeira Vila de São Vicente. “A gente perde a oportunidade de fazer uma escavação arqueológica e, com a escavação sem acompanhamento, você destrói todo tipo de material arqueológico, histórico, que possa ter soterrado ali ao longo dos anos. Você vai sedimentando, vai colocando camada de terra sobre aquilo. Portanto, perde-se a oportunidade de tentar localizar a primeira ou a segunda Vila de São Vicente”.

Casa Martim Afonso
Além da preocupação com a Praça 22 de Janeiro e outros monumentos vicentinos, Paulo Costa faz uma alerta sobre o abandono da Casa Martim Afonso. “A gestora botou a boca no trombone dizendo que a casa tá com sérios problemas com cupins, no telhado e da malfadada árvore que tem atrás da casa, que está ameaçando o sítio arqueológico preciosíssimo de 1.502, da primeira fortificação do Brasil, datada pela Margarida Andreata”, explica.
Costa lembra do da fachada do Mercado Municipal (já objeto de reportagem de Os Inconfidentes - veja em https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/mercado-municipal-de-sao-vicente-sp-agoniza-apesar-da-importancia-historica
“Foi feito uma restauração lá meio meia boca e agora, como invadiram, colocaram uns blocos nas janelas e nas portas, o que não poderiam fazê-lo. Mas como em São Vicente tudo é possível, a gente não discute muito mérito”, desabafa Costa.

Presidente do Instituto, Paulo Costa
Biquinha
Sobre a revitalização da Biquinha, Viana alerta que vem sendo construído um único pavilhão com todas as lojas de doces e artesanatos “Esse foi o maior problema, porque incendiou uma, pegou fogo em todas, e aí nós perdemos todas as lojas lá. O ideal é que fosse separado, como os comerciantes o querem, e que fosse disposto de uma forma que você não perdesse nenhum ponto da praça”.
Ele acredita que o projeto deveria separar as lojas, preservar as visadas e o córrego, usar piso e iluminação compatíveis com o período, revelar a parte enterrada do monumento do Quarto Centenário e restaurar ou recuperar outros monumentos, como o busto de Benedito Calixto”.
A Praça 22 de Janeiro, provavelmente, abriga vestígios das primeiras vilas e antigos enterramentos, “mas obras sem acompanhamento arqueológico podem destruir a primeira praça das Américas, onde está o monumento mais antigo da cidade, que é o monumento do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil”, completa o advogado.
Na Biquinha de Anchieta também estaria sendo cavado um buraco com mais de dois metros de profundidade, que parece que será um minianfiteatro no estilo romano, “que também não tem nada a ver com a concepção de São Vicente”, garante.

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