MP vai investigar atos de Peretto contra pessoas em situação de rua
Caso também já chegou ao Ministério Público Federal

Carlos Ratton
08.10.2026
Fotos: Reprodução vídeos redes sociais
Ele não se elegeu e ainda poderá ser responsabilizado eleitoral e criminalmente por seus atos. O promotor Rodrigo Fernandez Dacal, do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), iniciou a apuração da conduta do vereador e, agora, ex-candidato a deputado estadual Tiago Peretto (Podemos) por supostamente ter aproveitando a campanha para promover uma espécie de higienização social ou limpeza social em São Vicente (SP).
Vídeos utilizados na denúncia foram retirados de postagens do próprio parlamentar vicentino. Utilizando-se das redes sociais, Peretto teria promovido, na prática e na política, a iniciativa de tentar afastar pessoas consideradas "indesejáveis" ou em situação de vulnerabilidade dos espaços públicos. Quase uma exclusão urbana, como diria sociólogos e estudiosos. Veja a reportagem anterior https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/candidato-aproveita-campanha-para-investir-contra-pessoas-em-situacao-de-rua-em-sao-vicente-sp
Antes de qualquer outra providência, o promotor encaminhou seu despacho à Promotoria de Justiça Eleitoral. Depois, oficiou a Guarda Civil Municipal (GCM) de São Vicente sobre a questão envolvendo equipes da corporação nos atos do então candidato. A GCM tem 10 dias úteis – até esta quarta-feira (07) para se pronunciar.
Transcorrido o prazo de 30 dias – 23 de outubro – o promotor deverá encaminhar às promotorias criminal e de patrimônio Público (esta última de sua própria atribuição), para evitar múltiplas apurações preliminares sobre os fatos denunciados.

Vale a pena ressaltar que Peretto é do mesmo partido do prefeito Kayo Amado. Neste sentido, por sua aproximação partidária, seria mais sensato sugerir à Administração Municipal, via Câmara de Vereadores, um projeto de ação social que promovesse a escuta e o direcionamento dos mais vulneráveis a programas de acolhimento e assistência.
Sua função principal é a de fiscalizar o Executivo e criar leis. No entanto, Peretto, como aponta os vídeos, percorreu locais degradados do Município, como marquises, pontes, prédios abandonados, portas de comércios desativados e calçadas da cidade, fazendo ameaças a carrinheiros, sem teto, dependentes químicos e pessoas que, por algum motivo, estão buscando espaço para dormir e se abrigar e sobrevivendo como podem.
Federal
As ações de Tiago Peretto via redes sociais chegaram ao MPSP pelas mãos de Danilo Tavares, dirigente do PSOL. Agora, ele fez o mesmo no Ministério Público Federal só que de forma mais aprofundada.
O documento decorre da análise documental da Biblioteca de Anúncios da Meta. Danilo identificou anúncios veiculados entre 25 de agosto e 26 de setembro de 2026. Foram segundo ele, 127 identificadores únicos de anúncios distribuídos em diferentes grupos de veiculação.
“A documentação registra uma sequência de conteúdos envolvendo, em diferentes episódios, pessoas aparentemente em situação de rua ou em contexto de vulnerabilidade, com exposição de rostos e, em alguns casos, associação a suposto uso de drogas, furto, roubo ou outras condutas desabonadoras”, alerta Tavares.
O dirigente ressalta vídeos em que aparecem duas barracas, aparentemente utilizadas por pessoas em situação de rua, posteriormente derrubadas ou destruídas, além de referências a abrigo, internação compulsória e promessa de obtenção de recursos para projeto relacionado ao problema caso o candidato fosse eleito.
“Também foram identificados conteúdos relativos à área sob o viaduto Mário Covas. Em um criativo, o candidato afirma existir mais de 50 moradias no local e menciona suposta sublocação. Em outro, conversa com pessoas que apresenta como usuárias de drogas, formula questionamentos sobre a ocupação do espaço, menciona reclamações relacionadas à exposição de órgãos genitais e afirma que pretende resolver a situação caso seja eleito”, aponta Danilo.
A partir de 12 de setembro surgem, segundo denúncia de Tavares, conteúdos relacionados à Praça Barão e à região central. Um deles apresenta pessoa aparentemente em situação de rua em associação a episódio envolvendo um cachorro. O candidato (Peretto) afirma ter sido procurado por comerciantes, menciona reclamações sobre sujeira, urina, fezes, xingamentos e atos obscenos, declara que prenderia a pessoa e afirma ter enviado sua fotografia à Guarda Civil Municipal.
“Esse mesmo criativo foi posteriormente submetido a sucessivas novas veiculações pagas entre 15 e 22 de setembro. No mesmo período, foi identificado vídeo de aproximadamente seis minutos contendo abordagens de pessoas aparentemente em situação de rua, presença de agentes da GCM, abordagens e revistas e exposição de diversos rostos, além de expressão depreciativa dirigida a pessoas abordadas”, explica no documento ao MPF.

Danilo Tavares
O dirigente do PSOL ressalta ao MPF que a presença dos agentes é visualmente verificável, mas a origem da intervenção, sua motivação, a ordem recebida, o serviço executado e a finalidade institucional não podem ser determinados apenas pelo vídeo.
“Outro criativo, gravado na Praça Barão, mostra o candidato dirigindo-se a pessoas aparentemente em situação de rua, realizando cobranças sobre a permanência no local e, segundo a descrição documental, solicitando por telefone a presença da GCM”, revela.
“O material contém expressão depreciativa dirigida a pessoa retratada e elementos de divulgação da candidatura. Esse criativo foi utilizado em 17 anúncios individualizados e depois reapareceu em novo conjunto de 7 anúncios. A partir de 20 de setembro o candidato aborda pessoa aparentemente em situação de rua, segura-a pela camisa e formula questionamentos relacionados a suposto furto, utilizando referências à condução à delegacia e à prisão. Na sequência, aparecem agentes da GCM, revista, uso de algemas e condução ao 1º Distrito Policial de São Vicente, permanecendo o rosto da pessoa visível”, acrescenta Tavares.
Danilo completa que não se confirma na comunicação que tenha efetivamente ocorrido furto, que houvesse flagrante, que a abordagem ou revista fossem regulares, ou que a condução tivesse fundamento legal específico. E que essas circunstâncias devem ser confrontadas com os registros oficiais. “O fato que se apresenta como objetivamente relevante para a esfera eleitoral é que o episódio foi incorporado a conteúdo associado à candidatura e submetido a impulsionamento pago”, conta.

Pedidos
Depois de apresentar uma série de argumentações e legislações que respaldam sua denúncia, o dirigente pede ao MPF a adoção das medidas juridicamente cabíveis para obtenção, junto à Meta, dos registros completos dos 127 anúncios individualizados. Também a identificação dos responsáveis pela contratação, pelas contas publicitárias e pelos pagamentos, com indicação dos valores efetivamente gastos; a obtenção dos dados de alcance, impressões, frequência, audiência, segmentação, períodos e demais informações disponíveis e a verificação da correspondência entre identificação visual da propaganda, CNPJ/CPF, anunciante, contratante e responsável financeiro; o confronto dos anúncios com os gastos eleitorais declarados pela candidatura, fornecedores, datas e documentos fiscais, inclusive para apuração de eventual pagamento por terceiros e eventual abuso do poder econômico, abuso do poder de autoridade ou utilização indevida dos meios de comunicação social.
Danilo Tavares lembra que, como vereador eleito, Peretto teve um mandato inteiro para trabalhar. “Ele poderia ter ido fiscalizar o Centro Pop (equipamento de assistência a moradores em situação de rua), poderia ter cobrado a gestão municipal, podia ter apresentado projetos de lei e propostas sérias de políticas públicas para resolver o problema. Mas sabe o que ele fez? Nada. Ele esperou o período eleitoral para ligar a câmera do celular e fazer o espetáculo em cima de quem é mais frágil”, dispara.
Para Tavares, o que se vê nos vídeos de Peretto é de uma gravidade enorme. Para ele, abordar pessoas na rua de forma ostensiva, fazer interrogatório informal, constranger, expor, apontar crimes sem o devido processo legal não é fiscalização. “Isso cruza os limites jurídicos perigosos de nossa democracia. Por isso, provoquei o Ministério Público para apurar possíveis práticas de constrangimento ilegal, abuso de autoridade, violência da dignidade humana e o uso indevido dessa situação para promoção eleitoral e política”.
Exclusão urbana, conforme estudos e artigos científicos sobre o comportamento humano, nada mais é do que tratar a pobreza e a situação de rua como problemas de segurança ou estética. Afastar grupos como sem tetos, usuários de drogas e pessoas pobres dos centros das cidades. Usar o poder público para impor um padrão de ocupação do espaço que exclui os mais vulneráveis.
O Movimento Higienista usou desculpas de saúde pública para destruir cortiços e expulsar os pobres dos centros urbanos. Ações violentas, remoções forçadas e a arquitetura hostil continuam a ser apontadas como formas de limpeza social.
Desde o último dia 23, Os Inconfidentes vêm tentando ouvir a versão do vereador Tiago Perreto, por intermédio de sua assessoria. O espaço está aberto para que o vereador explique a situação apontada. A Prefeitura e a Câmara de Vereadores também preferem se manter em silêncio sobre a questão.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…