Vereador vai cobrar prefeita em exercício de Santos sobre trabalho infantil veiculado pelos Inconfidentes

Reportagem foi veiculada nesta terça-feira (16). Benedito Furtado formulou requerimento no mesmo dia, mas não pode apresentar em plenário porque sessão foi esvaziada

Vereador vai cobrar prefeita em exercício de Santos sobre trabalho infantil veiculado pelos Inconfidentes

Carlos Ratton

16.06.2026

Fotos: Tony Valentte/Câmara de Santos/Prefeitura de Santos/Facebook

O vereador Benedito Furtado (PSB) vai apresentar, provavelmente nesta quinta-feira (18), requerimento na Câmara de Santos solicitando informações da prefeita em exercício, Audrey Kleys, sobre a questão publicada pelos Inconfidentes, nesta terça-feira (16), relacionada ao trabalho infantil flagrado nas ruas de Santos (SP), especialmente no bairro do Gonzaga. Ver reportagem completa em https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/trabalho-infantil-virou-a-vitrine-de-santos-sp

O requerimento seria apresentado no dia da reportagem, mas a sessão foi esvaziada e encerrada para dar tempo para boa parte dos vereadores de situação subirem a serra para prestigiar a entrega do título de cidadão paulistano ao deputado federal Paulo Alexandre Barbosa (PSD), às 19 horas. Ou seja, Furtado não pode se manifestar e questões importantes, como o trabalho infantil na Cidade, foram deixadas em segundo plano.

Pouco antes dos vereadores ‘sumirem’, o vereador Fabrício Cardoso (Podemos) chegou a proferir algumas palavras sobre a questão. Ele defende uma reunião urgente envolvendo a Administração santista, os conselhos tutelares, o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista (Condesb) - órgão colegiado formado pelos prefeitos dos nove municípios da região e representantes do Governo do Estado de São Paulo – e até o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) por acreditar que o problema é metropolitano.

Vereadores esvaziam sessão para ir para São Paulo  

Vitrine

A reportagem intitulada ‘Trabalho infantil virou a vitrine de Santos’, publicada pelos Inconfidentes e assinada pelo jornalista Carlos Ratton traz à tona uma realidade extremamente preocupante e que demanda a atenção imediata do Poder Público Municipal”, afirmou o parlamentar no documento que será apresentado formalmente na Casa de Leis.  

Furtado salienta que a reportagem retrata o aumento da exposição de crianças e adolescentes em situação de trabalho nas ruas da Cidade, especialmente em semáforos, áreas comerciais e regiões de grande circulação de pessoas, evidenciando um cenário que não pode ser naturalizado pela sociedade.

“Mais do que um problema social, trata-se de grave violação dos direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pelas convenções internacionais de proteção à infância ratificadas pelo Brasil”, afirma.

Vereador Benedito Furtado: “Não se pode admitir que uma cidade reconhecida nacionalmente por seus indicadores de qualidade de vida e desenvolvimento humano conviva com a banalização de cenas que remetem à exploração do trabalho precoce”

O parlamentar santista lembra que o trabalho infantil priva crianças e adolescentes do pleno desenvolvimento físico, intelectual, emocional e social, além de comprometer o acesso à educação, ao lazer e à convivência familiar e comunitária.

Disse ainda que a presença cada vez mais frequente de menores em atividades laborais nas vias públicas de Santos revela a existência de famílias em situação de vulnerabilidade e exige atuação coordenada e permanente dos órgãos de assistência social, dos conselhos tutelares e de toda a rede de proteção.

“Não se pode admitir que uma cidade reconhecida nacionalmente por seus indicadores de qualidade de vida e desenvolvimento humano conviva com a banalização de cenas que remetem à exploração do trabalho precoce. A utilização de crianças em atividades econômicas, ainda que sob o argumento da necessidade financeira, não pode ser encarada como alternativa aceitável para a subsistência familiar, cabendo ao Estado promover políticas públicas capazes de assegurar proteção integral, inclusão social e dignidade às famílias em situação de risco”, escreveu.

Para o vereador, a reportagem cumpre importante papel social ao lançar luz sobre uma questão que muitas vezes passa despercebida ou acaba sendo incorporada ao cotidiano urbano.

“O alerta promovido pelo jornalista Carlos Ratton impõe a necessidade de que o Poder Público esclareça quais medidas vêm sendo adotadas para identificar, fiscalizar e combater a exploração do trabalho infantil no Município, bem como quais políticas de acolhimento e assistência às famílias estão sendo implementadas”, finaliza.

Crianças são vistas na Rua Azevedo Sodré (em abordagens a motoristas na esquina com a Avenida Washington Luís – Canal 3) e no entorno da Praça da Independência.

Requerimento

Furtado quer saber de Audrey quantos casos de trabalho infantil foram detectados desde 2024 até o primeiro semestre de 2026, discriminados por faixa etária e região da cidade, quantas abordagens foram realizadas pelas equipes de assistência social e conselhos tutelares em semáforos, praias, áreas turísticas e demais áreas públicas.        

Também quer saber se existe mapeamento dos pontos de maior incidência de trabalho infantil e comercialização de produtos e se a Administração pretende intensificar ações de fiscalização e conscientização em regiões turísticas e comerciais da Cidade.

Prefeita em exercício Audrey Kleys vai ser cobrada em relação ao trabalho infantil em Santos.

Mais inquietação

Ao fim da sessão, Os Inconfidentes conversaram com os vereadores e a vereadora que não foram para a solenidade em São Paulo. Eles se mostraram indignados com o encerramento dos trabalhos sem que o motivo fosse oficialmente apresentado.

“Eu pedi para que fosse justificada a inversão de pauta, mas o líder do Governo não justificou. Infelizmente, hoje a gente deixou de tratar de temas importantíssimos como o veiculado pelos Inconfidentes retratando o trabalho infantil. O Poder Executivo precisa agir, porque é ele quem regra a cidade, que tem o aparato, a Secretaria de Desenvolvimento Social, que hoje é comandada pela vereadora Renata Bravo, que já foi vice-prefeita”, desabafou o vereador Rui de Rosis Júnior (PL).

Para Rui, é preciso uma ação conjunta porque o problema ocorre na cidade inteira. “A gente identifica, além do trabalho infantil, a exploração, porque todo mundo sabe e todo mundo vê. Crianças entre 10 e 12 anos caixas de plástico padronizadas, arrumadas da mesma forma. Então, é lógico que tem alguma coisa que precisa ser investigada, apurada. Não podemos admitir que criança seja explorada. Mas quinta-feira está aí e a gente vai tratar de tudo isso”, garantiu.

A vereadora Débora Camilo (PSOL) disse que a questão do trabalho infantil vem sendo apontada a tempos e parece que não há uma resposta à altura da demanda. “Até porque sabemos que boa parte da justificativa que é dada é que as crianças não são de Santos. Ora, precisamos zelar pelas crianças independente da cidade de origem. Cadê o diálogo com os prefeitos dos outros municípios? Se as crianças estão aqui porque os pais aqui trabalham, o que a gente pode oferecer para essas crianças? Elas poderiam estar dentro de uma escola em Santos”, dispara.

Marcos Caseiro (PT) é enfático: “não pode ter criança em rua. Você sabe que isso, em qualquer país do planeta, é inadmissível. A culpa está sempre relacionada aos outros municípios. Na verdade, são incompetentes mesmo. A região é metropolitana. O problema não é de um e de outro, é de todos nós. Tem que ser resolvido conjuntamente”.

Muitos ignoram

Vale lembrar que os santistas já se acostumaram com a situação e a maioria ignora o problema. Alguns simplesmente não olham para a criança. Outros fecham a janela carro para sequer escutar a voz do pequeno vendedor de balas.

De qualquer forma, o problema está posto em plena luz do dia, sem filtros, e não foi difícil para a Reportagem encontrar outras crianças na mesma situação nas ruas Tolentino Filgueiras (entre bares e restaurantes), na Rua Azevedo Sodré (em abordagens a motoristas na esquina com a Avenida Washington Luís – Canal 3) e no entorno da Praça da Independência.

Atividade vista em Santos é classificada como uma das piores formas de trabalho Infantil devido aos riscos graves que oferece, como exposição a atropelamentos, violência urbana, sol forte e cansaço excessivo, além de prejuízo ao desempenho escolar, o tempo de lazer e o crescimento saudável. E ainda mais grave: aumenta a exposição ao abuso sexual e ao aliciamento para o tráfico de drogas.

 

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