Relatório aponta mais de 300 crianças em trabalho infantil em Santos desde 2022
Documento sinaliza ainda que o problema é metropolitano e envolve até crianças entre zero e seis anos em vulnerabilidade

Carlos Ratton
18.06.2026
Foto: Tony Valentte/Câmara de Santos
Um relatório enviado ao vereador Allison Sales (PL), em 12 de agosto de 2025, pela Secretaria de Desenvolvimento Social de Santos (SEDS), revela que o problema levantado pelos Inconfidentes esta semana, relacionado ao trabalho infantil em Santos (SP), é metropolitano, perdura por pelo menos quatro anos (desde 2022) e é muito mais grave do que se imagina. Até crianças entre zero e seis anos foram detectadas em vulnerabilidade social.
O vereador Lincoln Reis (Podemos) também vinha cobrando providências da Administração até a data do relatório e o vereador Benedito Furtado (PSB) cobrou esta semana após reportagem de Os Inconfidentes, demostrando que o problema persiste ainda em junho de 2026. Confira em https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/vereador-vai-cobrar-prefeita-em-exercicio-de-santos-sobre-trabalho-infantil-veiculado-pelos-inconfidentes e https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/trabalho-infantil-virou-a-vitrine-de-santos-sp
Pelo menos no papel, percebe-se que existe um esforço de Santos em solucionar o problema. Equipes formadas, eventos relacionados ao tema, treinamento e até pesquisa com a faixa etária das crianças. No entanto, o relatório não mostra quantidade efetivamente retiradas efetivamente das ruas e nem os resultados relacionados às famílias que permitem a vulnerabilidade social.
Somente que há uma “construção de vínculo e oferta de escuta qualificada, fazendo a identificação das crianças e dos adolescentes em situação de risco nas ruas, orientando e realizando os devidos encaminhamentos à rede de atendimento e proteção”, sem apontar números resolutivos.
Inconformado
Procurado pelos Inconfidentes, o vereador Allison Sales mostrou-se profundamente irritado com a falta de ações concretas por parte de Santos. “Essa é uma das questões que muito me preocupa, que debato e peço que as autoridades competentes realizem providências efetivas, mesmo antes de ser eleito”, revela o parlamentar.
Ele lembra que em março do ano passado encaminhou requerimento solicitando esclarecimentos providências acerca de crianças e adolescente que praticam vendas em semáforos, entre veículos e em tantos outros locais, perceptível por qualquer pessoa, incluindo os conselheiros tutelares, agentes públicos e contratados para realizar abordagem.
“Sobre esse documento recebi resposta em 23 de setembro de 2025, sem demonstração de eficácia na resolução dessa situação. No mesmo mês encaminhei outro pedido de esclarecimento sobre um termo de colaboração com empresa que realiza serviço de abordagem. Outra resposta evasiva”, relata, enfatizando que o termo em questão custa R$ 1.200.000,00 por ano.
“O que percebemos é um jogo de empurra-empurra entre conselhos, SEDS e prefeituras vizinhas. Quando percebo ou sou abordado por crianças ou adolescentes, procuro saber o motivo de estarem ali. Não realizo a compra (pensando em não estimular a prática) e digo que vou chamar o Conselho (tutelar) ou algo semelhante, quando então eles fogem após me xingarem muito”, relata.
Para Sales, existe muita conversa em reuniões, encontros e afins, muita estatística e contratação que não demonstra eficácia, além da inexistência de plano regional com as soluções que a população espera. “Crianças e adolescentes tendo seus diretos violados e quem tem condições de modificar essa realidade apenas assiste passivamente. Lamentável!”.

Sales quer ações efetivas nas ruas e um trabalho metropolitano que resolva a questão urgentemente
Metropolitano
Sales refere-se ao âmbito metropolitano da questão, já que o relatório aponta que boa parte das crianças são oriundas de outras cidades, principalmente de da vizinha São Vicente (SP). No documento, percebe-se um esforço de Santos em buscar um trabalho conjunto. Reuniões são realizadas com a Secretaria de Desenvolvimento Social de São Vicente, mas as iniciativas não estão efetivamente tirando as crianças vicentinas do trabalho infantil em Santos.
“Dada a grande presença de crianças e adolescentes identificados como sendo de outros municípios e o fluxo entre cidades próximas, esta Secretaria (SEDS) tem realizado reuniões periódicas com a, munícipio com maior fluxo de crianças/adolescentes identificados em trabalho infantil e/ou situação de risco no território de Santos. Estas reuniões auxiliaram no fluxo de encaminhamentos aos serviços do município em questão, assim como viabilizaram articulação para diálogo direto com as equipes destes serviços”, aponta o documento, sem revelar os resultados.

Vereador Lincoln Reis também já cobrou providências
Números das ruas
Segundo o documento, somente no ano de 2022 foram realizadas cerca de 1.280 abordagens pelo Serviço Especializado de Abordagem Social em que foram identificadas 390 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil ou outro risco nas vias públicas de Santos.
“Dessas, 25,5% eram residentes do próprio município e 74,5% eram residentes de outros. Entre os locais em que ocorreram as abordagens, respectivamente em ordem de maior ocorrência, aparecem os bairros na Zona da Orla, Zona Intermediária, Região do Centro e Zona Noroeste. Os dados indicam que o principal grupo identificado era o de adolescentes de 13 a 15 anos. Somados aos entre 16 e 17 anos, tem-se que quase metade das identificações foi de adolescentes”, aponta relatório.
Também em 2022, conforme o documento, o segundo principal grupo abordado foi o de crianças de até três anos. Ao somar com as de quatro a seis anos, a SEDES revelou que que cerca de 30% dos abordados (as) situavam-se na primeira infância. Lembrando que nessas faixas, em geral, genitores, principalmente mulheres, estavam nas práticas de comércio informal ou de solicitação de dinheiro.
De Santos
“Foram identificadas 100 crianças e adolescentes residentes de Santos em situação de trabalho infantil ou outros riscos nas vias públicas do Município. No que se refere às faixas etárias, observa-se que 26% tinham de 7 a 12 anos, 28% de 13 a 15 anos e 23% de 16 a 17 anos. As crianças de até 6 anos de idade corresponderam a 23% do total de identificados. A maior parte das abordagens aconteceu em regiões da Zona Noroeste. A região central foi a segunda em volume de abordagens, seguida da Zona da Orla e Zona Intermediária”, aponta o documento.

Benedito Furtado está buscando respostas da prefeita em exercício Audrey Kleys, qua já foi secretária de Assistência Social e de Educação
Em 2023
Foi identificado um total de 346 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil ou risco nas vias públicas de Santos, sendo 58 eram residentes na Cidade. “Os demais 288 eram residentes de outros municípios. A distribuição por faixa etária indica que 42% dos/as abordados eram adolescentes”, aponta o relatório, que ainda identificou crianças de zero a seis anos, que se encontravam na primeira infância, e correspondiam a 30,6% do total de identificados, todos acompanhadas de familiares.
Neste ano, segundo o documento, dos bairros em que ocorreram abordagens, tiveram destaque os da Zona da Orla, seguidos pelos da Zona Intermediária, Zona Central e Zona Noroeste. Das crianças e adolescentes residentes em Santos, os dados por faixa etária indicavam que quase metade das identificações era de adolescentes de 13 a 17 anos (46,6%). As crianças de zero a três anos correspondeiam a 17,2% e as de quatro a seis a 6,9%, correspondendo a quase um quarto das identificações (24,1%).
2024
No ano de 2024, foi identificado um total de 326 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil ou risco nas vias públicas de Santos. Desses, 68 eram residentes em Santos e 258 de outras cidades. As abordagens foram realizadas em sua maioria nas regiões Zona da Orla e Central.
A distribuição por faixa etária indicava que 26% tinham entre 13 e 15 anos. Ao somar com as entre 16 e 17 anos, revelou-se que 36% dos/as abordados eram adolescentes. Crianças de zero a seis anos, correspondiam a 33% do total de crianças e adolescentes identificados.
“Dos residentes em Santos, os dados por faixa etária indicam que, em 2024, 43% das identificações foram de adolescentes de 13 a 17 anos. As crianças da primeira infância, por sua vez, somaram 28%, sendo que 16% tinham até três anos de idade e 12% tinham de quatro a seis anos. A faixa etária de sete a 12 anos correspondeu a 29% dos identificados”.
Até a data de entrega do relatório (12 de agosto de 2025), a SEDS não havia tinha dados fechados sobre o ano de 2025, mas garantiu que Santos promove ações como o Seminário Municipal sobre Trabalho Infantil foi realizado em 12 de junho daquele ano, visando fomentar diálogo sobre o tema, com a participação dos servidores municipais e servidores da Assistência Social de municípios da Baixada Santista, além de adolescentes que estariam na socioaprendizagem.
Crianças em cemitérios
Outra ação planejada informada foi a de capacitação sobre trabalho infantil aos servidores da Coordenadoria dos Cemitérios (COCEM), proposta em decorrência ao histórico de presença de crianças ou adolescentes em atividades de limpeza de campa ou venda de produtos na porta dos cemitérios no Dia de Finados.
Também trabalhos em conjunto com equipes do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) - o principal serviço da assistência social básica. Ele atua na prevenção de vulnerabilidades, fortalecendo vínculos familiares e comunitários e promovendo o acesso a direitos fundamentais.
E ainda com as do Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEF)) é um serviço da assistência social brasileira voltado para pessoas que sofrem ou estão sob ameaça de violação de direitos, como violência física, psicológica, sexual, negligência ou abandono. Ele atua no fortalecimento de vínculos familiares e na reconstrução da autonomia dos indivíduos
“Há processos contínuos nas ações estratégicas do O PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) - uma ação do Governo Federal, integrada ao SUAS, focada em retirar crianças e adolescentes menores de 16 anos da exploração do trabalho precoce. Ele garante transferência de renda, inclusão escolar em tempo integral e acompanhamento familiar.
E em conjunto com A CM-PETI - Comissão Municipal de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil - o grupo intersetorial articula políticas públicas e ações sociais para combater o trabalho infantil, apoiar a inclusão de jovens no mercado formal (como aprendizes) e garantir proteção e qualificação.
Segundo relatório da SEDS de 2025, estavam em curso oficinas nas escolas com a participação de uma entidade formadora, as quais se constituem em ações de conscientização dos alunos com relação ao trabalho infantil e suas piores formas. Além das ações citadas, revelaram que outras estariam sendo articuladas com outras secretarias e serviços e encaminhamentos aos conselhos tutelares.

2026
Vale lembrar que os santistas já se acostumaram com a situação e a maioria ignora o problema. Alguns simplesmente não olham para a criança. Outros fecham a janela carro para sequer escutar a voz do pequeno vendedor de balas.
De qualquer forma, o problema está posto em plena luz do dia, sem filtros, e não foi difícil para a Reportagem encontrar outras crianças na mesma situação nas ruas Tolentino Filgueiras (entre bares e restaurantes), na Rua Azevedo Sodré (em abordagens a motoristas na esquina com a Avenida Washington Luís – Canal 3) e no entorno da Praça da Independência.
Atividade vista em Santos é classificada como uma das piores formas de trabalho Infantil devido aos riscos graves que oferece, como exposição a atropelamentos, violência urbana, sol forte e cansaço excessivo, além de prejuízo ao desempenho escolar, o tempo de lazer e o crescimento saudável. E ainda mais grave: aumenta a exposição ao abuso sexual e ao aliciamento para o tráfico de drogas.

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