Sucateamento dos CAPS caso Rafael serão temas da audiência na Câmara de Santos desta quarta-feira (20)

No comando da audiência estará a vereadora Débora Camilo (PSOL) e um dos exemplos a serem discutidos no encontro será o do jovem santista Rafael Pinheiro Machado, de 35 anos, internado, desde dezembro de 2022, no Hospital de Custódia em Franco da Rocha (SP).

Sucateamento dos CAPS caso Rafael serão temas da audiência na Câmara de Santos desta quarta-feira (20)

Carlos Ratton

19.05.2026

Fotos: Tony Valentte/Arquivos pessoais de Andrea Pinheiro Machado e Lívia Vieira/Secretaria de Administração Penitenciária

A Câmara de Vereadores de Santos (SP) sediará amanhã (20), às 19 horas, uma audiência pública para discutir o sucateamento dos centros de Atenção Psicossocial (CAPS) - unidades que oferecem atendimento gratuito e especializado em saúde mental – e o abandono institucional por falta de vagas públicas e equipamentos de acolhimento fora de hospitais de custódia para pacientes vítimas de esquizofrenia e outras enfermidades.

No comando da audiência estará a vereadora Débora Camilo (PSOL) e um dos exemplos a serem discutidos no encontro será o do jovem santista Rafael Pinheiro Machado, de 35 anos, internado, desde dezembro de 2022, no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP) Professor André Teixeira Lima, em Franco da Rocha (SP). Ele cumpre medida de segurança de internação imposta após o reconhecimento de sua inimputabilidade. 

O caso Rafael vem sendo publicado com exclusividade pelos Inconfidentes. Na última das nove reportagens, a a dupla de advogados Lívia de Paula Alves Martins Vieira e Victor Fabiano Pedrosa da Silva Vieira encaminhou à 5ª Vara de Execuções Criminais de São Paulo uma manifestação no sentido de impedir que a desinternação condicional de Rafael, portador de esquizofrenia, seja efetivada sem que haja uma vaga pública em uma instituição apta ao seu acolhimento em Santos ou outra cidade próxima. Confira em https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/caso-rafael-justica-pode-obrigar-santos-e-estado-a-promover-acolhimento-fora-de-hospital-de-custodia

Em um dos graves surtos psíquicos, ele agrediu a mãe, Andrea Cristina Pinheiro Machado de Oliveira (foto abaixo), que está há anos lutando para garantir a internação permanente do filho, que pode ser liberado a qualquer momento, pois a legislação não permite mais de quatro anos em um Hospital de Custódia.

Andrea acredita que a audiência servirá para uma ampla discussão envolvendo casos semelhantes ao de Rafael. Os vereadores Benedito Furtado (PSB), Chico Nogueira (PT) e Sérgio Santana (PL) também estão envolvidos na questão. “Falarei na Tribuna Cidadã por 10 minutos, representando duas associações”, afirma Andréa.

Advogada

A advogada Lívia de Paula explica a situação: “a perícia médica concluiu pela cessação da periculosidade de Rafael, recomendando tratamento ambulatorial. O laudo multidisciplinar indicou a necessidade de continuidade do tratamento em Serviço de Residência Terapêutica — SRT, ou instituição equivalente, como forma de assegurar sua reintegração psicossocial, nas proximidades do município onde residem seus familiares (no caso Andréa)”, aponta a dupla em uma petição datada de 30 de abril último.

Segundo o documento, Rafael permanece no HCTP porque o Poder Público ainda não apresentou local real, nominal, tecnicamente apto e formalmente aceito para recebê-lo. “Essa situação não pode se naturalizar. O problema atual não é ausência de decisão judicial. O problema é a ausência de execução administrativa da decisão judicial”, completa Lívia.

Hospital de custódia é onde são internados os réus condenados por determinados crimes e que se consideram, ao momento da ação, inimputáveis ou semi-imputáveis - indivíduos que, ao cometer um crime, possuem capacidade reduzida de entender a ilicitude do ato ou de se autodeterminar, devido a perturbação mental ou desenvolvimento mental incompleto.

Foto Câmara de Santos

Esquizofrenia é uma perturbação mental caracterizada por episódios contínuos ou recorrentes de psicose. Os sintomas mais comuns são alucinações (incluindo ouvir vozes), delírios (convicções falsas) e desorganização do pensamento.

Rafael é um homem de dois metros de altura e adquire muita força quando surta e, nessa situação, fala enrolado e ninguém entende suas ações. Ele já sofreu várias agressões físicas sendo que uma vez quase foi morto a tiros, tragédia só evitada porque alertaram sobre sua condição mental.

Os autos o descrevem como portador de quadro clínico complexo e sobreposto, com referências a transtorno bipolar com surto psicótico desde a infância. Rafael tem transtorno delirante orgânico, esquizofrenia hebefrênica, transtorno afetivo bipolar e outros comprometimentos mentais graves e duradouros.

Esquizofrenia hebefrênica é um subtipo grave de esquizofrenia, caracterizado por desorganização acentuada do pensamento, discurso incoerente, comportamento infantilizado/bizarro e respostas emocionais inadequadas ou superficiais. Com início precoce (adolescência ou início da vida adulta), apresenta prognóstico desfavorável e tratamento desafiador.

Toda a situação do rapaz pode ser conhecida por intermédio de duas reportagens de Os Inconfidentes: https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/caso-rafael-o-drama-de-uma-mae-contra-abandono-institucional-de-filho;  https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/caso-rafael-advogada-afirma-que-estado-deveria-garantir-protecao e https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/residencia-terapeutica-para-egressos-de-hospitais-psiquiatricos-ainda-e-tabu-em-santos-sp

Prefeitura

Em relação a questão da falta de residenciais terapêuticos, a Prefeitura de Santos garante que o Município possui três em funcionamento e em fase de formação de mais três, voltados para egressos de hospitais psiquiátricos. As existentes são: o Serviço de Residência Terapêutica I (Rua Godofredo Fraga, 32), o Serviço de Residência Terapêutica II (Rua Godofredo Fraga, 125) e o Serviço de Residência Terapêutica III (Rua Cyra, 24).

A Reportagem aguarda o número de vagas disponíveis e qual o grau do paciente que pode ser assistido nas unidades e a Secretaria informa que está em discussão permanente com a equipe de desinstitucionalização do Estado de São Paulo, com a Diretoria Regional de Saúde IV e a equipe do Hospital de Custódia.

 

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